Texto e Fotografias de Mônica Yamagawa


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mundo digital


patrimônio cultural

 

Patrimônio da metrópole paulistana

Margarida Cintra Gordinho
Iatã Cannabrava
Terceiro Nome
2010

Este livro apresenta, com fotos e textos, os bens tombados pelo Condephaat na cidade de São Paulo e em sua região metropolitana. Com ele, procuramos contribuir para amplir a possibilidade desses bens serem conhecidos, admirados e preservados, mantendo vivas as memórias e histórias que ajudam a construir nosso futuro...[+]

 


Dicionário de história de São Paulo

Antonio Barreto do Amaral
Imesp
2006

'A Coleção Paulística' trata de diversos aspectos da História do Estado de São Paulo, de sua formação e cultura, de alguns de seus municípios e de algumas de suas personalidades. Disponibiliza-se, assim, a pesquisadores e estudiosos da história de São Paulo, bem como ao público em geral. Os exemplares selecionados, escritos por nomes relevantes da prosa paulista, cobrem desde a saga dos Bandeirantes até a história dos teatros paulistas, destacando-se o 'Dicionário de História de São Paulo'...[+]

 


ENERGIA - DA LIGHT À ELETROPAULO

Marcos Lenso de Souza
Letras à Margem
2002

A vivência do autor, como funcionário da empresa, permitiu-lhe, no calor da transformação, produzir através de documentos, fotos e entrevistas, importante análise para os estudos da história da energia, relações de trabalho e processos de transformação da sociedade brasileira. O livro contribui para a história do desenvolvimento urbano paulista, além de fornecer ao leitor uma preciosa etnografia das transformações ocorridas na Eletropaulo Eletricidade de São Paulo S/A. Contempla a formação e transformação de um tipo específico de mentalidade de uma grande organização empresarial e descreve o exato momento em que o Estado deixa de exercer o seu controle em parte do setor energético.

Edição usada disponível na
Estante Virtual

 


download gratuito

A LIGHT, INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO BRASIL UMA LUZ SOBRE O CICLO PRIVADO-PÚBLICO-PRIVADO EM 80 ANOS PELA ANÁLISE DE TAXA DE RETORNO

Marcelo Mollica Jourdan
Fundação Getúlio Vargas
Escola de Pós Graduação em Economia
Mestrado em Finanças e Economia Empresarial
2006

A Brazilian Traction, Light and Power Company (“Light”), formada por empreendedores canadenses em 1899, operou por 80 anos praticamente toda a infraestrutura (bondes, luz, telefones, gás) do eixo Rio-São Paulo. A empresa passou por vários ciclos políticos, desde sua fundação até sua estatização em 1979. Durante este período de 80 anos, a infra-estrutura nacional, inicialmente privada, foi gradativamente passando para as mãos do Estado. O setor voltaria a ser privado a partir dos anos 90, configurando o ciclo privado-público-privado, similar ao ocorrido nos países mais desenvolvidos. A Light, símbolo maior do capital estrangeiro até os anos 50, foi inicialmente bem recebida no país, posto que seu desenvolvimento era simbiótico, causa e conseqüência, ao desenvolvimento industrial. Dos anos 20 em diante, crescem os debates econômicos ou ideológicos quanto ao papel do capital privado estrangeiro no desenvolvimento nacional, vis-a-vis a opção do setor público como ator principal. Sempre permaneceu sob névoa quais teriam sido os lucros da Light no Brasil, e se esses seriam excessivos, acima do razoável. Outra questão recorrente se refere até que ponto os congelamentos de tarifas teriam contribuido para as crises de oferta de infra-estrutura. Através de um trabalho de pesquisa em fontes primárias, esta dissertação procura reconstituir a história da Light, sob um foco de taxa de retorno sob o capital investido. Foi reconstruída a história financeira da Light no Brasil, a partir da qual calculou-se, para vários períodos e para os seus 80 anos de vida, os retornos obtidos pelos acionistas da empresa. A partir dos resultados obtidos, e utilizando-se de benchmarks comparativos, foi possível mostrar que: i) ao contrário da crença vigente à época, o retorno obtido pelo maior investidor estrangeiro no setor de infra-estrutura do Brasil do Séc. XX, se mostrou bem abaixo do mínimo aceitável, e ii) o represamento de tarifas, por várias décadas, foi de fato determinante para o subdesenvolvimento do setor de infra-estrutura no Brasil. ...[+]

 


site interessante

Shopping Light

Site oficial do Shopping Light,
com imagens das áreas restauradas...[+]

 


site interessante

Fundação Energia e Saneamento
Acervo

A Fundação Energia e Saneamento possui um acervo rico e diversificado, que pode ser classificado em quatro categorias: arquivístico, bibliográfico, museológico e patrimônio arquitetônico...[+]

 


A Light
A História da Empresa que Modernizou o Brasil

Duncan L. Mcdowall
Ediouro
2008

O livro coloca o papel da empresa Light como sendo uma parceria econômica que unia as necessidades de um país em desenvolvimento ao capital e à tecnologia vindos da Europa e da América do Norte. Um livro marcante, que ao documentar a história de uma das maiores companhias energéticas das Américas, espelha as forças e fraquezas da economia brasileira...[+]

 


CAPITAL - SAO PAULO E SEU PATRIMONIO ARQUITETONICO

Juan Esteves
Antonio Carlos Abdalla
Imesp
2013

'A Secretaria de Estado da cultura de São Paulo tem imensa satisfação em apoiar a reedição do livro 'Capital - São Paulo e seu patrimônio arquitetônico, de Juan Esteves. Com curadoria de Antonio Carlos Abdalla, o conjunto de fotografias selecionadas oferece um amplo panorama da diversidade de edifícios de distintas naturezas que marcaram a capital paulista ao longo de sua história, especialmente os últimos 100 anos. Colocado em evidência no magistral registro de Juan Esteves, o patrimônio arqutetônico paulistano pode aqui ser apreciado nos detalhes que acabam por ficar invisíveis em meio à agitação cotidiana da metrópole. Ao dar merecida visibilidade aos edifícios retratados, esta publicação ajuda a sensibilizar para a necessidade de preservação desse patrimônio, uma importantíssima e difícil tarefa, que precisava envolver toda a sociedade.' - Marcelo Mattos Araujo...[+]

 


TODOS OS CENTROS DA PAULICEIA

Levino Ponciano
Senac SP
2007

Os detalhes da formação da megalópole mostrados neste livro não são os relatados pela história oficial; são os anotados pelos passantes que chegaram a observar um 'mau humor' típico da população local, supostamente causado pelo clima e os registrados pelos próprios habitantes. Detalhes que vão desde hábitos do dia-a-dia (como o de apreciar formigas assadas, saborosa iguaria de antigamente) a peculiaridades sobre moradores que ficaram famosos e curiosidades acerca de prédios hoje históricos, ruas, avenidas, bairros inteiros. Com 'Todos os centros da Paulicéia', o leitor fará um city tour de mais de quatro séculos divertido e informativo, surpreendente para todos os paulistanos...[+]

 


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OS PRIMEIROS ANOS DA LIGHT NO BRASIL

Marcelo Molinari
Alexandre Robazzini
Fundação Energia e Saneamento
 

O trabalho consiste em uma análise de dados da companhia Light and Power acerca da primeira década do século XX. A partir das pesquisas desenvolvidas nos arquivos é possível perceber algumas importantes dinâmicas dos primeiros anos da empresa. Não há qualquer dúvida acerca do incremento para lucratividade da empresa. O faturamento bruto ao longo da primeira década do século 20 apresentou valores ascendentes. A quantidade de passageiros transportados aumentou. As milhagens das redes de bodes igualmente cresceram. A instalação da iluminação pública dinamizou-se de forma auspiciosa. Todos os dados analisados revelam o sucesso da Light em São Paulo. Não há, ao menos na década analisada, qualquer indício de decréscimo dos lucros ou da expansão da empresa... [+]

 


site interessante

Memória da Eletricidade

A Memória da Eletricidade disponibiliza aos interessados seu acervo histórico, nos segmentos arquivístico, bibliográfico, sonoro, filmográfico e iconográfico. Descubra aqui como consultá-los...[+]

 


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O SHOPPING LIGHT: PERCEPÇÃO E MEMÓRIA DO LUGAR

Maria Pronin
Berenice Carpigiani
Alunos: Maíra de Ascenção Pinheiro, Maraísa Ramos, Nathália Arruda, Renata Pazero, Leonardo José de Lima e Plínio de T. Macedo Carpigiani
III FÓRUM DE PESQUISA FAU.MACKENZIE I
2007
 

O Alexandre Mackenzie é uma edificação de interesse histórico para a cidade de São Paulo que foi reconvertida para shopping center, com arquitetura original preservada e mudança de uso no seu interior. Abriga hoje um espaço semipúblico, de arquitetura interiorizada, que se destina ao consumo e ao lazer. Sua localização, à Rua Xavier de Toledo, na esquina do Viaduto do Chá é estratégica pela sua visibilidade e pelo fácil acesso aos pedestres que circulam pela rua...[+]

 


História & Energia: a Light revela São Paulo - Fotografias da Light (1899-1920)

Vários Autores
FPH DA ENERGIA DE SP
2001

Espaços livres de uso público do centro nas
fotografias da Light (1899-1920).
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Patrimônio Cultural Paulista
CONDEPHAAT
Bens Tombados
1968 - 1998

Edna Hiroe Miguita Kamide
Terza Cristina Rodrigues Epitácio Pereira
Imesp
1998

 

Informações sobre os bens tombados pelo CONDEPHAAT até o ano de 1998.

 

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CENTRO DE SÃO PAULO

EDIFÍCIO

ALEXANDRE MACKENZIE

shopping light
viaduto do chá
rua coronel xavier de toledo, 23

atualizado em: 28 de janeiro de 2017

 

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O Edifício Alexandre Mackenzie, por várias décadas, foi a sede da Empresa de Energia Light & Power Improvements, que posteriormente, ficou conhecida como Eletropaulo; ainda hoje, há quem o chame pelo "apelido" Prédio da Light (quem nasceu antes dos anos 1980, com certeza, ouviu algo similar das bocas de seus pais: "Desliga essa luz, está pensando que eu sou sócio da Light?"). Com a privatização da Eletropaulo, o edifício foi colocado à venda e, desde 1999, abriga o Shopping Light.

O desenho do Edifício Alexandre Mackenzie saiu das pranchetas de Preston e Curtis, norte-americanos responsáveis pelas linhas ecléticas da edificação e foi construído no local onde, no passado, existiu o Teatro São José, este, construído em 1864 pelo arquiteto Carlos Ekman, encomendado pela Família Prado. Em 1898, o teatro foi destrúido em um incêndio e muitas das peças que restaram (vitrais, colunas gregas, esculturas) foram reaproveitadas por Francisco de Castro, para a construção da Vila Itororó; o entulho da demolição, Ramos de Azevedo utilizou para o aterramento do terreno onde seria construído o Mercado Municipal.

 

"Edifício sede da empresa na fase inicial, na rua Direita, quarteirão entre a Praça da Sé e o Largo da Misericórdia. No andar térreo funcionava a James Mitchell & Cia, que vendia material elétrico. Fotografia de Guilherme Gaensly"
Fonte da Imagem: Fundação Energia e Saneamento

Clique na imagem para ver a imagem original e ampliada no site da Fundação Energia e Saneamento.

O Edifício Alexandre Mackenzie não foi a primeira sede da The São Paulo Tranway em São Paulo. Em 7 de abril de 1899, um grupo composto por James Gunn, A. Mackenzie, John Smith, Herbert Vernon, Archibald Sinclair, Richard Gosset e Ernest McNeil, fundou a firma The São Paulo Railway, Light & Power Co., que posteriormente teve seu nome alterado para The São Paulo Tramway, Light and Power Company, para evitar confusões com a companhia inglesa, responsável pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. O primeiro escritório da empresa ficava na Rua São Bento, 57; depois, nos andares superiores do edifício na Rua Direita, 7 (atual 43) e posteriormente, por volta de 1907, nos quatro pavimentos de uma edificação na Praça Antônio Prado.

Mas, esta edificação não foi (pelo menos em um primeiro momento) objeto de interesse da empresa canadense. Ao final da década de 1910 a The São Paulo Tranway procurava um novo local para instalar sua sede, pois, com a ampliação de seus serviços - bondes, luz, telefone, gás, calefação -, era necessário aumentar o seu quadro de funcionários e, consequentemente, o local de trabalho. Naquele momento, o escritório na Praça Antônio Prado abrigava os departamentos de gás e luz e parte do jurídico; o setor de tráfego ficava na Casa dos Carros, na Alameda Glette, uma das razões para a construção de uma nova sede era abrigar todos seus departamentos administrativo em um único local. Em 1916, a empresa fez três propostas de compra, uma para o Palacete Prates (Viaduto do Chá/Rua Líbero Badaró/Vale do Anhangabaú), ouro para um prédio na Rua São Bento e para alguns prédios deteriorados e voltados para possível demolição, no Largo da Sé; mas, nenhuma das propostas obteve resposta positiva. Em 1919, o então proprietário do abandonado Teatro São José, Paulo de Assunção, ofereceu (no dia 3 de junho) a venda de sua propriedade, porém, esta foi descartada pela empresa, no entanto, cerca de dez dias depois, a empresa procurou o proprietário para iniciar as negociações, concluídas apenas no dia 27 de junho de 1920.

A demolição-construção não começou imediatamente; a empresa solicitou em juízo a notificação dos inquilinos, para que esses desocupassem o prédio em 60 dias, com exceção de uma inquilina, Madame Ravidat, que sublocava os quartos do local para encontros amorosos, para essa senhora, o prazo de saída foi de apenas 30 dias. Além dos inquilinos, a empresa, através de um pedido judicial, solicitou a retirada dos painéis publicitários (Água Plantina e Cimento Rodovalho) fixados na fachada do velho teatro.

Somente em 1923, a edificação foi desocupada por completo. No dia 1 de novembro de 1923, a área administrativa do antigo teatro recebeu o setor de Recebimento de Contas de Luz. A empresa tentou adaptar o espaço do teatro, nos arquivos históricos da Eletropualo, há documentos e projetos que prevêem a abertura de frestas laterais no corpo da edificação, para a circulação de ar e luz natural. No entanto, a empresa concluiu que a melhor opção era demolir o teatro e construir no terreno a sua nova sede (GOB - General Office Building).

Em 1924, a empresa solicitou para os arquitetos Preston e Curtis, um projeto para o "GOB", capaz de abrigar todos os setores administrativos da organização. A execução da obra, iniciada em 1925, foi realizada pelo Escritório de Ramos de Azevedo e concluída em 1929.

O projeto elaborado pelos norte-americanos previa a construção em 4 fases, para serem executadas à medida que a ampliação da empresa necessitasse de mais espaços:

    1. Cinco andares de escritórios, com dois níveis intermediários, com a fachada voltada para o Viaduto do Chá e esquina com a Rua Coronel Xavier de Toledo;
    2. Cinco andares voltados para a Rua Formosa;
    3. Construção adicional de outra alas de andares, no terreno onde funcionava o Bar e Restaurante Panamericano;
    4. Sobre esse bloco, mais 10 andares de escritórios;

A etapa de 1925-1929, abrange a primeira fase, com a parte da fachada voltada para o Viaduto do Chá e a de 1938-1941, a segunda, quando a edificação foi reformada e sua ampliação executada pela Severo, Villares & Cia, com as obras para a fachada voltada para a Rua Formosa. As outras duas última fases não foram realizadas.

Juntamente com o Theatro Municipal, o edifício passou a ser ponto de referência no centro da cidade, com o Viaduto do Chá entre ambos, a área passou a ser a porta de entrada para o Centro Novo, que nas décadas seguintes abrigará estabelecimentos importantes para a cidade, muitos, voltados para a elite social da época. O nome "Alexandre Mackenzie" foi escolhido para homenagear o advogado canadense, vice-presidente da Light na época de sua instalação na capital paulista; além de fazer parte do grupo que fundou a empresa, coube a ele, antes da criação do grupo, verificar as questões legais da concessão obtida pelo capitão Antônio Gualco, em 1897, para executar os serviços de transporte por eletricidade, na cidade de São Paulo (como não conseguiu capital suficiente para realizar a obra, o capitão retornou para o Canadá e o grupo constituído em 1899 tomou a frente do projeto). Antes d formação "oficial e legal" do grupo, em 1898, foi requerido como complemento à concessão a licença para a construção de uma linha aérea por toda a cidade, para a exploração da luz elétrica.

Ao final da primeira fase, em 1925, a empresa possui cerca de 460 funcionários, para ocupar a área de 17.350 metros quadrados; em 1929, a área de cerca de 30.000 metros quadrados, abrigava 1830 funcionários: 

"Naquela época, vislumbrando o crescimento da empresa já havia um projeto para se construir uma torre de 20 pavimentos na parte central do edifício. Para tanto, foi adquirida uma área contígua ao edifício, na Rua Xavier de Toledo, onde funcionou o restaurante do escritório até a destivação total do edifício no final da década de 90. Desse modo, a torre de 20 pavimentos brotaria da construção trilátera pelo Viaduto do Chá, Rua Formosa e Xavier de Toledo. O projeto foi abandonado e à medida em que a empresa foi crescendo foram sendo alugados imóveis nas imediações para atender às necessiddes de acomodação do pessoal técnico-administrativo, até que no final da década de 70 foi alugado um conjunto de edif´ciios na Av. Brigadeiro Luis Antonio onde novamente foram unificadoas rodas essas atividades. No prédio da Xavier, como era ttratado pelos antigos funionários, permaneceram a alta administração e áreas diretamente ligadas a ela, além de todo o Centro de Operação do Sistema de Alta e Baixa Tensão e o Centro de Informática."

SOUZA, Marcos Lenso de. Energia - da Light à Eletropaulo: Desenvolvimento e curto-circuito no trabalho. Presidente Venceslau/SP: Letras à Margem, 2002, p.115.

Ainda sobre funcionários, há um interessante depoimento, de um ex-funcionário, Primo Vernier, que trabalhou muitos anos no "Prédio da Light", em "Memória - uma publicação do departamento de patrimônio histórico da Eletropaulo", de 1991: 

"Sou italiano e nasci e Veneza, no dia 14 de outubro de 1904. (...) Quando tinha pouco menos de um ano de idade, a família resolveu deixar Veneza e arriscar a vida na Alemanha. Fomos para Dusseldorf, lugar onde passei a infância. Depois, fascinados pelas notícias que nos chegavam, decidimos ir para os Estados Unidos da América, para fazer fortuna. Partimos, meu pai, minha mãe, eu e meu irmão Fortunato, nascido na Alemanha. Antes, porém, meu pai quis conhecer o Brasil e, aqui em São Paulo, encontrou alguns patrícios que tentaram convencê-lo a ficar. A partida foi adiada, adiada, até que fomos surpreendidos com a notícia de que as passagens tinham perdido a validade. O jeito foi permanecer no Brasil.

(...)

Aos 17 anos eu já estava casado. (...) Nessa época, o dr. Cincinato contratou a construção de uma igreja em Pelotas, no Rio Grande do Sul, para onde eu deveria ir. Estava esperando que se desenvolvessem os trâmites burocráticos, quando fui convidado pelo dr. Lobo, superintendente de Relações Públicas da Light, para trabalhar na empresa. Como a construção no sul ia demorar um pouco, fui trabalhar de porteiro na Light. (...) Fui me acostumando com o trabalho sujeiro à horários e em lugar fechado. Como me sobrava tempo, andava muito pela região central de São Paulo. Um dia, vi que estavam construindo um grande depósito no Cassino Antarctica, na av. São João. As obras dependiam de estaqueamento do terreno e a coisa estava emperrada. Numa das vezes que estive lá, sapenando, dei alguns palpites sobre o processo de estaqueamento. Resultado: acabei sendo contratado para supervisionar a construção. Agora eu tinha dois empregos: o da Light e, nas horas que me sobravam, no Cassino Antarctica. Além disso, havia ainda a espectativa da ida para o sul. Um dia o dr. Cincinato me chamou: os contratos haviam sido firmados e precisava de mim. Respondi que estava empregado e ele me disse, muito zangado, que conhecia o dr. Lobo e ia pedir para que eu fosse despedido. Dia depois, esteve na Light e pediu que eu fosse mandado embora. Fui chamado à superintendência e o dr. Lobo disse que gostaria de ficar comigo, desde que eu me decidisse definitivamente. Permaneci na Light e fui promovido, assumindo a chefia dos mensageiros. Fui admitido como porteiro em janeiro de 1930; em 38 passei a porteiro chefe; em 67, a chefe da Seção de Vigilância; em 72, a chefe da Seção de Edifícios; em 77, a chefe da administração de edifícios e, em 79, a adjunto administrativo. Permaneci na empresa 55 anos.

Como pode ver, sempre estive ligado à admnistração dos prédios; conservação e segurança.

Conheço o prédio da Xavier de Toledo como ninguém. Aconteceu até de me chamarem para resolver problemas técnicos, surgidos depois da minha aposentadoria. A Light mandou até instalar em minha casa um ramal telefônico e passei a carregar comigo o bip de no. 537. Desta maneira, estava à disposição 24 horas por dia.

Passei muitas noites dentro da Light. Na Revolução de 30, por exemplo, fiquei quase um mês, dia e noite, dentro do prédio, comendo sanduíche e tomando água mineral; é que a gente tinha medo de invasão... Em 1932, queriam pegar o dr. Sílvio de Campos, que se escondera alí. Um grupo de pessoas bastante grande fazia alvoroço na rua, gritando e desafiando o dr. Sílvio a sair do prédio. Lá dentro, ficamos escorando as portas e reforçando as trancas. Aí, lembrei-me de que o dr. Sílvio tinha um escritório particular que ficava um pouco acima na Xavier de Toledo. Saí pela rua Formosa, subi a ladeira da Memória e vim pela Xavier. Quando estava bem defronte ao prédio em que o dr. Sílvio tinha escritório gritei: Ele está aqui! Os revoltados foram para lá, gritando, e nós ficamos mais descansados.

(...)

Bem, enquanto fui funcionário da Light, trabalhei também, por uns tempos, na Companhia Internacional de Capitalização, junto à Seção de Vendas de Títulos, organizando grupos de vendedores. Aí eu ganhei um bom dinheiro.

(...)

Em 12 de dezembro de 1962 eu me naturalizei cidadão brasileiro; afinal, era no Brasil que eu tinha passado a minha vida...

Porém, a única coisa que eu não podia imaginar acabou acontecendo: a empresa, para a qual eu havia dedicado tanto da minha vida, depois de 49 anos de completa entrega, foi ingrata comigo. Desejando se livrar dos funcionários mais idosos, me nomearam adjunto administrativo e me puseram no desvio. Perdi a minha sala, a secretária e me colocaram num canto do corredor, sem qualquer responsabilidade funcional. O ramal telefônico instalado na minha casa e o bip foram recolhidos. Antes eu era assoberbado de serviço e, desde então, não sabia sequer o que haveria de fazer. Imagine eu, que estava costumado com trabalho desde criança... Foi uma humilhação. Eu queria trabalhar e não me deixavam. Eu, que sempre fui tão respeitador, por que não era respeitado? Recorri à justiça e abri uma reclamação trabalhista contra a empresa. Mas a justiça é muito lenta e acabei propondo um acordo que foi imediatamente aceito. Isso aconteceu em 1985 e resultou na minha aposentadoria... Depois de tanto temppo dedicado à Light, às vezes as minhas recordações são bem tristes. As medalhas que me deram, eu joguei fora. Dos distintivos de ouro que me concederam, fiz esta corrente que trago no pescoço..."

[Depoimento de Primo Vernier. In: Memória - uma publicação do departamento de patrimônio histórico da Eletropaulo. Ano IV. Número 1011. Jan. / Jun. 1991, p.19-21.]

As partes internas que o senhor Primo Vernier conhecia muito bem, receberam atenção dos arquitetos: pedras, mármores, metais e madeiras de lei, que foram elaborados pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Em outubro de 1984, a construção foi tombada pelo CONDEPHAAT: 

Artigo 1o – Fica tombado como monumento de interesse arquitetônico o Edifício Alexandre Mackenzie, situado à Rua Cel. Xavier de Toledo no 23, nesta Capital, destacado componente há mais de meio século, de notável conjunto ambiental urbano já identificado como imagem da própria Cidade de São Paulo.

[CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Resolução SC 27/84, de 06 de outubro 1984, publicado no DOE 10/10/84.]

Cleide Floresta, em seu artigo para a Folha de S.Paulo, explica os detalhes do processo para restauração do Edifício Alexandre Mackenzie: 

"Em 90, foi aberta uma concorrência pública para que empresas apresentassem projetos de uso para o imóvel. A empresa que ganhasse a concorrência teria que recuperar o edifício.

O Fundo Birmann, com o projeto de construção de um shopping center, ganhou a concessão e recebeu o direito de uso do imóvel por um período de 50 anos.

Nos dois primeiros anos, serão repassados para a Eletropaulo 27% da renda bruta do shopping. A partir do terceiro ano, o repasse será de 28%."

[FLORESTA, Cleide. Projeto mantém a fachada original. Folha de S.Paulo: Imóveis. São Paulo, 4 Jan. 1998.]

Em 1999, a edificação foi reaberta ao público, como shopping center, o Shopping Light. O projeto de restauração foi desenvolvido pela Turner, uma empresa norte-americana e a transformação do local ficou a cargo do arquiteto Carlos Faggin.

Em julho de 2005, um artigo da Folha de S.Paulo, anunciou o investimento R$ 6 milhões voltados para uma nova reforma do Shopping Light, com o objetivo de criar salas de cinema, centros cultural e de exposições e ampliação das lojas, no entanto, até o momento, as alterações realizadas foram a ampliação da praça de alimentação, a instalação de uma academia de ginástica nos andares superiores e, talvez, a grande mudança tenha sido a reforma dentro da área das Lojas Renner, que passou a ocupar dois andares do estabelecimento.

Em abril de 2015, a Folha de S.Paulo publicou que General Shopping fechou um acordo com a Zahav Empreendimentos Imobiliários para a venda de 100% do imóvel do Shopping Light, com valor estimado de R$ 141,1 milhões.

 

Referências bibliográficas

AMARAL, Antonio Barreto do. Dicionário de história de São Paulo. São Paulo: Imesp, 2006, p.384-385.

ANDRADE, Milton. "Teatro São José na esquina da Light". In: Memória Eletropaulo, São Paulo, Jan. / Jun. 1996, N.23, p.33-37.

BRITO, Edsel O., "Numa esquinada história". In: Memória - uma publicação do departamento de patrimônio histórico da Eletropaulo. Ano IV. Número 1011. Jan. / Jun. 1991, p.22-44.

CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo.Resolução SC 27/84, de 06 de outubro 1984, publicado no DOE 10/10/84.

Depoimento de Primo Vernier. In: Memória - uma publicação do departamento de patrimônio histórico da Eletropaulo. Ano IV. Número 1011. Jan. / Jun. 1991, p.19-21.

Empresas restauram prédios históricos. Folha de São Paulo: Imóveis. 4 de janeiro de 1998.

ESTEVES, Juan, ABDALLA, Antonio Carlos, LORCH, Denise. Capital - São Paulo e seu patrimônio arquitetônico. São Paulo: Imesp / Secretaria do Estado da Cultura, 2013, p. 98-99, 262.

FLORESTA, Cleide. Projeto mantém a fachada original. Folha de S.Paulo: Imóveis. São Paulo, 4 Jan. 1998.

GORDINHO, Margarida Cintra, CANNABRAVA, Itatã. Patrimônio da metrópole paulistana. São Paulo: Terceiro Nome, 2010, p.305.

Imóvel do Shopping Light é vendido por R$ 141 milhões. Folha de São Paulo: Mercado. 15 de abril de 2015.

KAMIDE, Edna Hiroe Miguita, PEREIRA, Terza Cristina Rodrigues Epitácio. Patrimônio Cultural Paulista: CONDEPHAAT – bens tombados, 1968 – 1998. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1998, p.182.

MELO, Leandro Lopes Pereira de . História & Energia - A Light revela São Paulo. Espaços livres de uso público do centro nas fotografias da Light (1899 - 1920). São Paulo: Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo,2001, p.30-31.

PONCIANO, Levino. Todos os centros da paulicéia. São Paulo: Senac SP, 2007, p.106.

Shopping Light quer passar por reforma. Folha de São Paulo: Cotidiano. 2 de julho de 2005.

SOUZA, Marcos Lenso de. Energia - da Light à Eletropaulo: Desenvolvimento e curto-circuito no trabalho. Presidente Venceslau/SP: Letras à Margem, 2002, p.113-115.

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