Texto e Fotografias de Mônica Yamagawa


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FONTE DAS IMAGENS: Condephaat

Encarceramento dos alienados e a Instalação na Várzea do Carmo 

Ainda sobre o Hospital dos Alienados, Isabel Maria Alves Mezzalira e Ornella Regina Flandoli (Website do Arquivo do Estado) publicaram um artigo sobre o encarceramento de "alienados" e a instalação do Hospital dos Alienados na Várzea do Carmo:

"Em 1º de outubro de 1828, portanto, são criadas comissões que deveriam visitar regularmente as prisões e apontar aquelas que não estivessem de acordo com a lei, sugerindo novas obras e/ou lugares mais bem equipados para acolherem criminosos. O fato é que não apenas criminosos eram levados para a cadeia, mas também todo o tipo de alienados, lazarentos, loucos furiosos, doentes, entre outros.

Através dos tempos, e da legislação, observamos inúmeras denominações, tanto à doença (loucura) quanto ao doente, por absoluta ignorância da evolução e tratamento dos diversos sintomas. Assim, temos desde os “possuídos por demônios” até expressões legais como “sandeus”, “furiosos”, “desmemoriados”, ou então “loucos de todo gênero”, “alienados”, “insanos”, etc. A periculosidade do louco implicava sua segregação, daí a necessidade de locais específicos para seu recolhimento.

Com a Lei nº 12, de 8 de setembro de 1848, o governo era autorizado a providenciar a elaboração de plantas e orçamento visando a instalação de um Hospício para alienados. E São Paulo sai na frente. Era presidente da Província o Padre Vicente Pires da Motta.

Depreende-se que o problema dos alienados recolhidos e aprisionados era muito grave. Tão grave que o governo Provincial solicitou à Santa Casa de Misericórdia que abrigasse e tratasse esses doentes. Mas ela se recusou obrigando o governo, em 1852, a implantar o primeiro Hospício de Alienados na Rua São João, próxima à Avenida Ipiranga, em prédio de propriedade de Felizardo Antonio Cavalheiro e Silva, alugado por 9 anos, a 360rs anuais. Seu diretor era um leigo, Alferes Thomé d’Alvarenga. Foi inaugurado com 9 doentes e funcionou até 1862 ou 1864 (as datas são conflitantes) nesta casa alugada pela Província. O projeto era de H. Bastide (sic), orçado para adaptação da chácara de Felizardo Antonio Cavalheiro e Silva, com 7 salas (para os furiosos), 2 salas e 5 quartos (para os pacíficos), além de área para enfermeiros, administração, cozinha, quintal de serviços, poço, etc., e deveria ficar pronto até o final de abril de 1852.

Não é a proposta deste texto discutir a loucura e seu tratamento, mas sim apontar o uso da chácara do cônego Monte Carmelo para esse fim. A edificação e sua localização no centro da cidade e às margens de um rio mostrou estar absolutamente fora dos padrões preconizados pelos protocolos da Medicina vigente à época, devido à insalubridade e umidade, e aos perigos de rebeliões e fugas.

Em 1893 é contratado o Dr. Francisco Franco da Rocha, primeiro diretor clínico do Hospício e figura muito conhecida pela criação e instalação do Juquery, este considerado moderno para os padrões do final do século 19. O novo manicômio, distante do centro urbano, bem ao contrário do Hospício da Tabatinguera (?), era um misto de colônia agrícola e hospital."

[MEZZALIRA, Isabel Maria Alves, FLANDOLI, Ornella Regina. "O HOSPÍCIO DE ALIENADOS DA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO ". Website: Arquivo do Estado.]

 

PARTE OFFICIAL

EXPEDIENTE DA PRESIDENCIA

21 de dezembro de 1855

"Ao adminstrador do hospício de alienados. - Mande Vmc. dar alta á Firmino (?) de Lacerda e Joaquim Antonio Jordão (?) que se achão nesse hospício, visto dec(?)rar-me e juiz de órphãos da capital (?) estão no gozo de suas faculdades inte(?) tuses, conforme o exame o que proc(?) como facultativos."

[Correio Paulistano: 2 de janeiro de 1856]

Dicionário de história de São Paulo

Antonio Barreto do Amaral
Imesp
2006

'A Coleção Paulística' trata de diversos aspectos da História do Estado de São Paulo, de sua formação e cultura, de alguns de seus municípios e de algumas de suas personalidades. Disponibiliza-se, assim, a pesquisadores e estudiosos da história de São Paulo, bem como ao público em geral. Os exemplares selecionados, escritos por nomes relevantes da prosa paulista, cobrem desde a saga dos Bandeirantes até a história dos teatros paulistas, destacando-se o 'Dicionário de História de São Paulo'...[+]

 


BENS CULTURAIS ARQUITETÔNICOS NO MUNICÍPIO E NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO. São Paulo: SNM – Secretaria de Estado dos Negócios Metropolitanos, EMPLASA – Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo S/A e SEMPLA – Secretaria Municipal de Planejamento, 1984.BENS CULTURAIS ARQUITETÔNICOS NO MUNICÍPIO E NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

São Paulo: SNM – Secretaria de Estado dos Negócios Metropolitanos
EMPLASA – Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo S/A
SEMPLA – Secretaria Municipal de Planejamento
1984

 

Edição usada disponível na Estante Virtual

 


Patrimônio Cultural Paulista
CONDEPHAAT
Bens Tombados
1968 - 1998

Edna Hiroe Miguita Kamide
Terza Cristina Rodrigues Epitácio Pereira
Imesp
1998

 

Informações sobre os bens tombados pelo CONDEPHAAT até o ano de 1998.

 

Edição usada disponível na Estante Virtual

 


Patrimônio da metrópole paulistana

Margarida Cintra Gordinho
Iatã Cannabrava
Terceiro Nome
2010

Este livro apresenta, com fotos e textos, os bens tombados pelo Condephaat na cidade de São Paulo e em sua região metropolitana. Com ele, procuramos contribuir para amplir a possibilidade desses bens serem conhecidos, admirados e preservados, mantendo vivas as memórias e histórias que ajudam a construir nosso futuro...[+]

 

CENTRO DE SÃO PAULO

HOSPITAL DE ALIENADOS

ANTIGO QUARTEL DO

BATALHÃO DE GUARDAS

várzea do carmo
rua frederico alvarenga, s/n
parque dom pedro II

atualizado em: 11 de janeiro de 2017

 

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Até o século XIX, pessoas com doenças mentais, os "alienados", eram "tratados" em cadeias públicas, juntamente com outros tipos de criminosos. Segundo Antônio Barreto do Amaral, as primeiras informações, sobre mudanças nas formas de tratamentos dos alienados, datam de 1825-1829, e estão relacionadas ao Padre Luís Navarro, ao Capitão de Engenheiros Abreu e ao mestre pedreiro Vicente Gomes:

"Em 1829, a Santa Casa de Misericórdia, auxiliada pela Câmara Municipal, instalou um pequeno recolhimento à Rua das Flores, para dois dementes, um dos quais aquele padre."

[AMARAL, Antonio Barreto do. Dicionário de história de São Paulo. Coleção Paulística. Volume XIX. São Paulo: Imesp, 2006, p.311.]

A pesquisa de Antônio Barreto do Amaral, menciona que na década de 1840, o hospital funcionou na Avenida São João, entre a Rua Aurora, a Travessa São João (hoje Rua Joaquim Gustavo) e a Praça dos Curros (atual, Praça da República), em uma edificação alugada. Em 1848:

"Com o regulamento expedido em 5 de maio, instalou-se a 11 do mesmo mês, a título provisório, o primeiro manicômio paulista, tendo por diretor o alferes reformado Tomé de Alvarenga e, por médico, o Dr. João Tomás de Melo."

[AMARAL, Antonio Barreto do. Dicionário de história de São Paulo. Coleção Paulística. Volume XIX. São Paulo: Imesp, 2006, p.311.]

Em outro artigo, de Eudes de Campos, menciona o hospital, porém, na década de 1850:

"A nova construção foi instalada num terreno da Rua São João, esquina da Rua Aurora, em 1852. Quatro anos mais tarde, porém, já necessitava reparos. Em 1856, o arquiteto-medidor alferes José Porfírio de Lima (c.1810-1887) apresentava uma proposta de reforma do hospício. Pela planta até hoje existente, conservada no Arquivo Público do Estado, constatamos que o hospital era basicamente formado por um sobrado e alguns anexos. Uma longa galeria com 16 cubículos assoalhados, de taipa de pilão e pau-a-pique, com entradas protegidas por um alpendre, estava sendo então proposta pelo engenheiro prático Porfírio para a complementação do estabelecimento. Pelo que podemos observar na planta não estava sendo sugerido nada muito distante de uma espécie de senzala. Ameaçando ruína, foi descrito em 1862 como muitíssimo acanhado, sendo formado por uma casa de sobrado, onde no pavimento superior havia cinco salas, das quais a maior era destinada à administração, e as quatro restantes, pequenas, habitadas por alienados pacíficos. No térreo havia varanda (palavra talvez usada na acepção de sala de jantar), três quartos maiores, dos quais um servindo de despensa, e sete cubículos escuros e abafados, onde sem dúvida ficavam trancafiados os loucos furiosos. Num dos lados havia um telheiro, em que funcionava a cozinha."

[CAMPOS, Eudes. Hospitais paulistanos: do século XVI ao XIX. São Paulo: Informativo do ArquivoHistórico de São Paulo, N.29, Ano 6, Abr. - Jun., 2011.]

Anos depois, a edificação alugada encontrava-se em péssimas condições físicas, e o Governo do Estado adquiriu cônego Monte Carmelo a Chácara do Freitas, anteriormente conhecida por Chácara dp Fonseca. O acesso ao local era feito pela ponte de Tabatinguera – conhecida como Ponte do Fonseca, desde o século XVIII. “Fonseca” era Domingos da Fonseca Leitão, um “cirurgião”, licenciado. A edificação onde foi instalada o hospital era a antiga sede da Chácara do Fonseca. 

Essa propriedade na Várzea do Carmo foi adquirida em 1859, a edificação da antiga chácara foi adaptada e o hospital inaugurado em 19 de maio de 1862. Dez anos depois (1872), a construção estava em ruínas e o então presidente João Teodoro Xavier, juntamente com o Ministro da Agricultura, José Fernandes da Costa Pereira Júnior, autorizaram melhorias para imperdir que a edificação se transformasse em ruínas.

"A construção possuía originalmente um único lanço. Embora de grandes proporções (25 vãos de extensão no segundo pavimento da fachada), o hospício a partir de sua instalação nunca deixou de estar em contínuo aumento. Em 1870, foi empreendida uma profunda reforma interna na parte principal da construção. Dessa intervenção se conservam ainda muitos traços: amplas portas de arco pleno e molduras internas, que revelam a influência de um rude Neoclassicismo. No tempo do Presidente João Teodoro Xavier de Matos (1828-1878), em 1874, durante a abertura da Rua do Hospício, a cargo da Câmara Municipal e executada com recursos provinciais, aproveitou-se para arrasar o monte que se erguia fronteiro à construção, o antigo Morro do Saibro ou da Tabatinguera, e abrir um largo no local, com a justificativa de que a elevação, muito próxima da fachada do manicômio, o tornava insalubre, úmido e sombrio. Ao longo dos anos 1870, 80 e 90, duas outras alas seriam erguidas, formando um enorme edifício com gigantesco pátio central. A ala da direita seria ocupada pelas mulheres e a esquerda pelos homens.

Na frente ficavam a capela, a sala da administração, a sala da arrecadação, os dormitórios e a sala de visitas, onde se encontrava o retrato de Frederico Alvarenga, administrador do hospício por 28 anos (a rua do antigo hospital leva hoje o seu nome).

Em fins do século XIX, existia um prédio alugado defronte ao hospício habitado por 22 mulheres loucas. No prédio principal, viviam 423 pacientes, sendo 209 homens e 214 mulheres. No hospício eram mantidos os loucos furiosos e alguns convalescentes, sendo mais tarde transportados para a colônia do Juquerí os doentes homens que estavam em condições de trabalhar.

O Hospital dos Alienados manteve-se no edifício da antiga Rua do Hospício até 1903, sendo transferido então para as modernas instalações do hospício do Juqueri. A seguir, o prédio foi ocupado pela Guarda Cívica da Capital58, depois chamada Guarda Civil, pela 7.ª Cia. de Guardas do II Exército e pelo 2.º Batalhão de Guardas, que sucedeu a companhia anteriormente mencionada. Desde 1995, o local pertence ao 3º Batalhão da Polícia de Choque do Estado de São Paulo."

[CAMPOS, Eudes. Hospitais paulistanos: do século XVI ao XIX. São Paulo: Informativo do ArquivoHistórico de São Paulo, N.29, Ano 6, Abr. - Jun., 2011.]

A edificação ainda existe, porém encontra-se em péssimas condições de conservação, fechada e abandonada.

Na década de 1980, a edificação já se encontrava em processo de deterioração:

"O corpo principal, que é a ala mais antiga, guarda internamente características originais, tais como: forros, assoalhos, molduras de vãos e portas com as respectivas bandeiras de vidros coloridos. Nas envasaduras de vergas retas ou em arco pleno podemos sentir a influência do neoclassicismo imperial.

As alas laterais de construção posterior - a da direita do último quartel do século XIX e a outra da última década do mesmo século - estão interligadas por um quarto lanço já do século XX. O pátio interno, ao longo de todo edifício em quadra, é percorrido por uma estreita varanda com piso de abobadilhos e cobertura de telhas francesas, sustentadas por delgadas colunas de ferro.

Se exteriormente perdeu seus beirais, a fachada interna do corpo principal conserva a solução da cobertura original, ostentando interessante lanternim."

[BENS CULTURAIS ARQUITETÔNICOS NO MUNICÍPIO E NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO. São Paulo: SNM – Secretaria de Estado dos Negócios Metropolitanos, EMPLASA – Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo S/A e SEMPLA – Secretaria Municipal de Planejamento, 1984, p.426-427.]

Veja mais detalhes (e fotografias) no site São Paulo Antiga.

 

Dados técnicos da edificação

Número de pavimentos: dois.

Técnica construtiva: taipa de pilão e alvenaria de tijolos.

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