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atualizado em: 11 de outubro de 2016

 

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Em 19 de novembro de 1798, o capitão-general Bernardo José de Lorena (no texto de Maurício Rodrigues de Resende, é mencionado como Capitão General Governador Antonio Manoel de Mello Castro e Mendonça, mais conhecido como General Pilatos) recebeu por Aviso Régio a ordem para a criação de um Horto Botânico na cidade e nomeou para diretor e inspetor do empreendimento, o sargento-mor António Marques da Silva. 

"A criação do Horto Botânico deveu-se à necessidade de propagar no Brasil o conhecimento de plantas que pudessem ser exploradas economicamente. Essa concepção de plantio foi adotada diversas vezes pela metrópole como exemplo da cana de açúcar, oriunda da Ilha de Açores. No Horto, também havia a intenção de se promover a agricultura com a transplantação e a introdução de novas plantas que se adaptassem ao clima da cidade (como o cacau e baunilha) e o cultivo de espécimes para produzir madeira para a indústria naval e fabricação de papel. Ou seja, criação do Horto Botânico foi definida pelo interesse econômico da Coroa, que procurava uma nova maneira de não só explorar, mas de manipular os recursos naturais da cidade."

[RESENDE, Maurício Rodrigues de. O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana. Revista PIBIC, Osasco, v. 5, n. 6, 2011, p. 99-110]

No dia 28 de setembro de 1799, foram concedidas no Bairro da Luz,

"vinte datas de terra com restada de 273 braças (600,60 metros) contadas desde os muros do padre Capelão até o ângulo defronte ao Espaldão (contraforte do aterrado de Santana) (...) A iniciativa dependia de verbas. Então, apelou-se à generosidade dos habitadores e, por meio de subscrição popular, obteve-se a importância de 6:906$000, parte da qual foi empregada na construção de quartel para o Corpo de Artilharia dos Voluntários Reais. Essa obra iniciada no Campo da Luz seria interrompida e seus muros demolidos, definitivamente, em 1844. Mas, parte da quantia se aplicou no aparelhamento do Holpital Militar, no Acu, enquanto os subscritores seriam contemplados com patentes militares."

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo.São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.52-53.]

Um dos espaços públicos mais antigos da cidade, as obras para a construção do Jardim da Luz começaram em 1799, porém, sua execução se prolongou por vários anos, segundo Antonio Barreto do Amaral, principamente, pela falta de água na área. Isso acontecia porque o abastecimento de água, até chegar à área da Luz, realizava um grande percurso a céu aberto, ficava sujeito a enormes quantidades de contaminação e desvios de curso (por exemplo, para abastecer chácaras e fazendas) até chegar ao Jardim. O caminho da água começava no Rio Saracura Grande (hoje, Avenida 9 de Julho), e finalizava o abastecimento no Jardim Botânico (Jardim da Luz). Com isso a água que conseguia alcançar o seu destino chegava em quantidade reduzida, e não era suficiente para o funcionamento do Horto Botânico.

O espaço foi inaugurado, somente - e incompleto -, apenas em 1825. Segundo Maurício de Rodrigues de Resende, já na sua inauguração o local passou a ser chamado de "jardim" e não mais "horto", pois, devido aos problemas de abastecimento de água, era inviável a criação de um horto, pois não haveria irrigação suficiente para as árvores e plantas. Devido aos grandes investimentos financeiros aplicados até então no espaço, era necessário reaproveitar a área de alguma forma, transformando-o em "Jardim Botânico": 

"Continua-se a trabalhar no jardim [Botânico] estabelecido nesta cidade; ainda que seja uma despesa que mais toca ao agradável do que ao útil, não se pode dispensar, uma vez que ele já serve de recreio aos cidadãos em certos dias, e não é conveniente abandonar uma obra começada, perdendo-se o que está feito."

[Rafael Tobias de Aguiar. José Olympio, vol.2, 1954, p.533. APUD. GORDINHO, Margarida Cintra, CANNABRAVA, Iatã. Patrimônio da metrópole paulistana.São Paulo: Terceiro Nome / Secretaria do Estado de Cultura, 2010, p.108.]

Aliás, o relato de Tobias de Aguiar sobre "continua-se a trabalhar", refere-se ao fato de que, em 1825, o então "Jardim Botânico", como era chamado inicialmente, foi inaugurado, porém, como já mencionado, não estava concluído. O Presidente da Província, Lucas Antônio Monteiro de Barros, deliberou que os trabalhos no local prosseguissem, nomeando para diretor do projeto o Marechal José Arouche Toledo Redon. Porém, o marechal ficou pouco tempo no cargo, sendo substituído por Antônio Maria Quartim.

Poucos anos depois da inauguração parcial, o local já encontrava problemas de abandono e falta de fiscalização. No dia 6 de março de 1830, José Carlos Pereira de Almeida Torres, então, no cargo de presidente provincial, ao visitar o jardim, 

"verificou que o local fora 'transformado em pasto de gado, visto que encontrou, soltos, dentro do mesmo jardim, oito bois de carro e um cavalo, que soube pertencerem a um jardineiro alemão que ali não se achava; que foi informado de que o abuso datava já de muito tempo e que no lugar onde estavam os bois, se havia feito uma plantação de capim à custa da Fazenda Pública, tendo encontrado três mulheres sem fazerem nada e observou estarem trabalhando ou enchendo o tempo, três estrangeiros que ganhavam cada um 420 réis por dia e um escravo da nação, sem que tivesse quem os inspecionasse e dirigisse'. O resultado dessa inspeção foi a dispensa do jardineiro que ganhava 25$000 mensais aliado ao fato do mesmo produzir carvão e mandá-lo vender na cidade."

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.55.]

Em 1838, a denominação do local passou de Jardim Botânico para Jardim Público oficializando o local como a primeira área de lazer e descanso a população. Para o cargo de diretor foi nomeado António Bernardo Quartim, filho do antigo diretor. Os problemas com a falta de água ainda eram frequentes, assim como a de mão de obra para dar continuidade ao projeto.

No começo da década de 1840, foi construído um muro na parte da frente do Jardim. Apesar das pequenas melhorias realizadas desde a sua inauguração, o Jardim era somente usado pela população aos finais de semana, por causa dos problemas com a iluminação noturna.

"Em 1844, é solicitada junto a Assembléia uma verba orçamentária para um viveiro de árvores e plantas exóticas e que constam no Guia Botânico da Praça da República e do Jardim da Luz, do Dr. A. Usteri, publicado em 1919, dando indícios que a solicitação foi aceita. Este novo viveiro tinha o intuito de realizar um campo experimental com novas culturas, mas reunindo o útil e o agradável, continuando também o passeio público."

[RESENDE, Maurício Rodrigues de. O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana. Revista PIBIC, Osasco, v. 5, n. 6, 2011, p. 99-110]

Na década de 1850, o Conselheiro José Antonio Saraiva informou em um de seus relatório à Assembléia, que adquirira mudas, plantas exóticas e flores, oriundas do Rio de Janeiro, para o Jardim da Luz e que três quartos da área estavam plantados, mas que precisava de mais verba para a contratação de trabalhadores, e que, além de pessoal para prosseguir com o projeto, também necessitava de água.

Em 1860, parte do terreno do Jardim Público (vinte braças = 44 metros), foi entregue para a companhia inglesa, para a construção da estação ferroviária, não sem protestos por parte da população pela redução do seu espaço de lazer dentro da cidade.

Em 1861, o jardim passou a ser abastecido com águas do tanque do Reúno: 

"Após estudos, resolveu-se pela canalização desde o Tanque Reiuno (Consolação), formado pelo represamento do ribeirão Saracura, afluente do Anhangabaú, e que alimentava o chafariz do Piques conduzida sobre telhões. Ao se aproveitar o mesmo recurso, estendeu-se o conduto através do Morro do Chá, (...) pelos espaços do atual Teatro Municipal. Em progresso, infletia pelo Largo do Tanque do Zuniga (Largo do Paissandú); passava defronte à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Santa Ifigênia; atravessava os quintais da rua Triste (av. Cásper Líbero) atingindo Horto Botânico, onde alimentava o tanque. Este ao transbordar, lançava águas em direção do Tamanduateí".

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo.São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.53.]

No ano de 1864, eram frequentes as apresentações dominicais da "Euterpe Commercial", banda composta por vários representantes da colônia portuguesa na cidade. Segundo conta Antônio Rodrigues Porto, em 1865, foi organizado um banquete no Jardim da Luz, para a inauguração de um trecho da ferrovia, porém, devido a um desastre na linha, o evento foi cancelado, no entanto,

"apesar de o Jardim ter ficado aberto, lá foram encontrar no outro dia tudo intacto, não faltanto uma só colher."

[PORTO, Antônio Rodrigues. História da cidade de São Paulo através de suas ruas. 2ª. Edição. São Paulo: Carthago, 1996, p.115.]

O Barão de Itaúna, Cândido Borges Monteiro, assumiu a presidência entre os anos de 1868-1869 e, durante a sua gestão, autorizou a substituição da canalização de água em valetas (telhas), por encanamentos. 

"Surpreendentemente iria descobrir-se, mais tarde, que tais condutos de oito polegadas eram de papelão betumado, adivindo dai a razão de tantos problemas com o abastecimento. Ademais, restauraram-se muros, grades e portões; construiu-se um chafariz no centro da Praça da Luz, fronteiro ao Jardim, escoando o líquido por oito torneiras colocadas em quatro faces."

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.56.]

No texto de Maurício Rodrigues de Resende, a informação sobre essa encanação de papelão é diferente, colocando o Barão de Itaúna como o responsável não pelo novo encanamento de telhas, mas, pelo encanamente de papelão: 

"O encanamento que transmitia água o Jardim estava danificado. Quando o Sr. Cândido Borges Monteiro assume a presidência da província, entre os anos de 1868 e 1869, providencia a canalização da água para o Jardim, diretamente do Tanque do Reúno. Porém, o encanamento é de baixa durabilidade, feito de papelão revestido de asfalto e que iria deteriorar-se nos próximos anos."

[RESENDE, Maurício Rodrigues de. O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana. Revista PIBIC, Osasco, v. 5, n. 6, 2011, p. 99-110]

 

Fotografia de Guilherme Gaensly. Provavelmente de 1902. Kiosque da "Bavaria".
FONTE DA IMAGEM: Brasiliana Fotográfica.

 

Em 1873, novas áreas do Jardim foram cedidas para a construção do Liceu de Arte e Ofícios, edificação que hoje abriga a Pinacoteca do Estado. Também nesse ano, Joaquim Eugênio de Lima (engenheiro uruguaio) recebeu o direito de construir e explorar quiosques no jardim, por 40 anos, porém, tal benefício foi suspenso e transferido para Jacob Friedrichs, com base na alegação de que a planta apresentada por eugênio de Lima não satisfazia os interesses do local. Posteriormente, Eugênio de Lima processou o governo e recebeu, como indenização a quantia de 120:000$000.

 

Fotografia de Guilherme Gaensly. Provavelmente de 1902. Lago em formato de Cruz de Savóia.
FONTE DA IMAGEM: Brasiliana Fotográfica.

 

Durante a presidência de João Teodoro Xavier (1874), o jardim recebeu novas árvores e flores, encomendadas do Rio de Janeiro; o problema com o abastecimento de água foi solucionado e um lago com o formato da Cruz de Savóia foi construído com novas esculturas, quatro delas representando as estações do ano e, uma outra, representando Vênus. 

"(...) Teodoro aplicou grande parte dos recursos provinciais na modernização e embelezamento da cidade, gastando metade do orçamento da província, gerando a contestação da oposição. Sua proposta de urbanização visava mais o lazer de pessoas ricas vindas de fora da cidade do que a população propriamente dita, tendo em vista que sua gestão aconteceu em um período que a elite cafeeira começava a ocupar a região de Santa Efigênia e Campos Elíseos."

[RESENDE, Maurício Rodrigues de. O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana. Revista PIBIC, Osasco, v. 5, n. 6, 2011, p. 99-110]

 

A torre, o mirante construído durante o governo do Dr. João Teodoro, por volta de 1900.
Fotografia de Aurélio Becherini.
FONTE DA IMAGEM: Casa da Imagem.

 

Uma das obras, no Jardim da Luz, mais conhecidas do período de administração de João Teodoro, foi a 

"torre circular de tijolos, à maneira de mirante e observatório, ao preço de seis contos de réis. A obra elevou-se, com cerca de vinte metros de altura, fronteira à Estação da Luz e ganhou o apelido de 'canudo do dr. João Teodoro'. Era uma peça arquitetônica edificada à imitação de farol marítimo, com escadas circulares internas, unindo os cinco andares, e desvões escuros que casais aproveitavam para atitudes menos escusas. Foi fechada em 1890 e, com a lei n. 496, de 14 de novembro de 1900, demolida, reutilizando-se o material para murar parte inicial da rua dos Imigrantes, atual José Paulino, em paralelo com a linha ferroviária."

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.56.]

 

Ruínas do antigo "canudo do Dr. João Teodoro".
Fotografia de Mônica Yamagawa

 

Aliás, em 2000, durante as obras de restauração do Jardim da Luz e a troca de lugares de algumas das árvores, foram encontradas as ruínas da torre construída durante o governo de João Teodoro: 

" 'A descoberta permite verificar a técnica construtiva e também traz referências históricas do cotidiano da cidade ligado ao abastecimento de água', afirma o historiador Luis Soares de Camargo, diretor do DPH. (...) As canalizaçoes de água, que vieram à tona após a retirada de parte da terra, chamaram a atenção da equipe do DPH. O sistema mais antigo da cidade data do século 18 e sabia-se de sua existência apenas por meio de registros históricos. Para transportar água na época, construíam-se canaletas abertas de tijolos a partir das fontes. O líquido seguia até várias partes da cidade a céu aberto, levado apenas pela força da gravidade. No caminho, enchia chafarizes onde a populaçao fazia o abastecimento das casas. 'Como a água corria ao lado das ruas, ficava exposta a todo tipo de sujeira', destaca Camargo. 'Todos os anos, no período das cheias, havia epidemias.' O modelo foi utilizado até o fim do século 19, quando começou a haver água encanada em residências de Sao Paulo. O duto que fazia o escoamento dos altos do Bexiga até o Parque da Luz reapareceu nas escavaçoes."

["Troca de árvores revela achado arqueológico em SP". Diário do Grande ABC. 24 Mai. 2000.]

Retornando para a história do Jardim da Luz, ainda durante o período de administração de João Teodoro, o local recebeu novos equipamentos de iluminação (com 135 combustores a gás) e a primeira linha de bonde de tração animal, ligando a Praça da Sé à Estação da Luz, em 1872 (o bonde passava pelos limites do Jardim).

No século XIX, o embelezamento do jardim e a construção da estação ferroviária melhoraram as condições do local e os eventos realizados no jardim passaram a atrair a população. As apresentações dos aeronautas eram muito populares, em especial a do mexicano Teobaldo Ceballos que em abril de 1876, fez duas ascenções em balões: 

"Na primeira , o seu aparelho desceu nas proximidades da Ponte Grande, entre a chácara do general José Vieira Couto de Magalhães e a Chácara Floresta; na segunda, pelas imediações da casa do major Luiz Pacheco de Toledo, na Ponte Pequena."

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.58.]

Além de Ceballos, em 1885 apresentaram-se o espanhol conhecido como "Capitan Martinez" e sua esposa; em 1890, o norte-americano Stanley Spencer.

Em 1880, foi construída uma casacata com gruta, para embelezamento do local. No ano seguinte (1881) o governo autorizou o aumento a área do jardim, até a Rua das Figueiras:

"Parece que a medida considerou o fato de o Jardim da Luz ter motivado a sociedade paulistana, antes arredia, a comparecer para passeios e encontros, sob o som da "Euterpe Comercial", ou da banda regida pelo jovem maestro sargento Antão Fernandes ou, ainda, das quermesses beneficentes e leilões. Essa afluência despertou interesse para a instalação de novos equipamentos urbanos. Foi o caso do ex-presidente provincial Antônio Cândido da Rocha (1869 a 1870) que, a 27 de maio de 1890, protocolou requerimento, solicitando a concessão, pelo espaço de 50 anos, de terreno fronteiro ao Jardim e que se destinaria à construção de um coliseu, com teatro, circo, salões de baile, etc. (Atas LXXVI, 1890). Por contrato formalizado a 5 de junho de 1891, construiu-se o 'Chalet Restaurant', sob a responsabilidade do Dr. Antônio Veriano Pereira e Hugo Bonicini".

[JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - De partamento do Patrimônio Histórico, 1988, p.58.]

Entre 1882 e 1884, Albert Thiebaut, guarda-livro da Casa Garraux, promoveu no jardim a primeira quermesse abolicionista em São Paulo.

 

Vista do antigo coreto do Jardim da Luz, em 1891. Fotografia de Militão Augusto de Azevedo.
FONTE: Casa da Imagem.

 

Em 1893, a administração do jardim é transferida do estado para o município. O então prefeito, Antonio da Silva Prado, nomeou Antonio Etzel como administrador do Jardim, cargo que ocupou até sua morte, em 1930.

Etzel desenhou um novo traçado ao Jardim, com uma rua circular contendo grandes gramados e adornado com jaqueiras; árvores antigas foram reaproveitadas, criando alguns bosques, também foi implantado no local, um mini zoológico.

O espaço do jardim foi reduzido, novamente, em 1895, com a doação de parte do terreno para a construção da Escola Modelo Prudente de Moraes.

Posteriormente, no começo do século XX: 

"o Jardim da Luz sofreu uma grande transformação. O prefeito Antônio Prado achou-o muito provinciano, e então o Jardim passou a ter canteiros artísticos, à moda inglesa, ostentando flores mais aristocráticas, aves, etc. O seu coreto data de 1902, com projeto do engenheiro Maximiliano Hehl. Num recanto do Jardim viam-se dois cedros, procedentes da floresta de Bussaco, nos arredores de Coimbra, e ali plantandos em 1910; também nesse ano foi inaugurado o busto de Giuseppe Garibaldi, em um dos lados da avenida principal do Jardim."

[PORTO, Antônio Rodrigues. História da cidade de São Paulo através de suas ruas. 2ª. Edição. São Paulo: Carthago, 1996, p.115-116.]

Sobre os animais, Eduardo Etzel, filho de Antonio e irmão de Arthur (este, com a morte do pai, assumiu o cargo e passou a morar na Casa do Administrador), em seu livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, lembra: 

“Construíram-se dois grandes cercados para veados de duas raças distintas, (...) o viveiro dos macacos, com um famoso e terrível macaquinho albino, Martinho, e o cercado dos patos e aves exóticas, com capivaras, pacas e cutias, e algumas jaulas com o lobo brasileiro (guará), o urubu-rei e a águia, além de um viveiro de passarinhos.”

[Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.]

Por volta de 1900, Jorge Americano lembra dos concertos no jardim do Palácio do Governo, segundo o mesmo, com o aprimoramento das apresentações da Banda da Força Pública, estava dava dois concertos por semana na cidade: às quintas-feiras, no Jardim do Palácio e aos domingos, no Jardim da Luz.

Em 1901, foram constrúidos a Casa do Administrador e a Casa de Chá (ou Ponto Chic), que tornou-se o ponto de encontro da elite paulista.

Eduardo Etze também conta um pouco como essa a residência, nesse caso, as dependências externas: 

“No quintal de nossa casa havia um barracão com uma parte para depósito de madeira e outra para a carpintaria, onde o carpinteiro, Celso Somadoci, fazia as escadas de pinho de riga para os podadores, amolava machados na pedra de amolar movida por ele mesmo à mão e afiava serrotes para a poda das árvores. Fazia ainda as carrocinhas e os carrinhos usados pelos operários.

O portão alto de nossa casa, que dava para a rua Ribeiro de Lima, estava dividido em duas partes. Numa ficava o almoxarifado, onde se guardavam as ferramentas novas e apetrechos da repartição. No outro lado era o escritório, onde meu irmão Arthur fazia as folhas de pagamento, as plantas dos jardins e praças, os ofícios para o Prefeito e onde, por ocasião dos pagamentos, distribuía os envelopes com o salário de cada operário. Assim era constituída nas primeiras décadas deste século [XX] a administração dos jardins: o Administrador, o ajudante, alguns feitores e a turma de operários, quase todos imigrantes italianos e portugueses”

[Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.]

 

Herma Garibaldi. Fotografia de BJ Duarte. 1941.
FONTE DA IMAGEM: Casa da Imagem.

 

Em 1910, Olavo Bilac inaugurou a Herma Garibaldi e durante anos, a colônia italiana realizava uma enorme festa em homenagem ao monumento, que retratava o líder da Farroupilha. Eduardo Etzel, lembra das "preocupações" de seu pai, Antonio Etzel, com relação às comemorações italianas no local: 

“Todos os anos havia um festejo com garibaldinos, todos de barrete e camisa vermelha, cheios de medalhas, barbudos. Havia grande afluência de italianos, ainda efusivos no seu patriotismo e amor pela longínqüa Itália. O desespero de papai nessas ocasiões era que, com a reunião, os discursos inflamados e a banda de música arrasavam os canteiros, que tinham que ser todos replantados.”

[Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.]

Em 1914, o engenheiro Melo Franco construiu passeios com mosaico à portuguesa. O Jardim da Luz funcionou como jardim zoológico durante algum tempo, mas, na década de 1930, os animais existentes foram removidos e distribuídos para outras instituições em São Paulo, entre eles o Parque da Água Branca (estação experimental da Secretaria da Agricultura). As estufas de plantas também foram retiradas do Jardim e enviadas para o viveiro Manequinho Lopes, no Parque Ibirapuera, aliás, sobre essas estufas Eduardo Etzel, em “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, conta detalhes de como eram e onde estaval localizadas dentro do Jardim da Luz: 

"O viveiro de plantas era atrás da Cadeia Pública, onde hoje está a Garagem Municipal, na rua Afonso Pena, e também do outro lado da rua onde hoje está o colégio e a igreja salesiana e o jardim em frente à Escola Politécnica. O viveiro maior era na Av. Água Branca, na antiga Escola de Pomologia e onde hoje é o Parque da Indústria Animal. Nestas duas áreas semeavam-se e se faziam crescer as futuras árvores das ruas de São Paulo. Mas havia também o miniviveiro, onde se criavam as plantas de flores que eram transplantadas para os canteiros dos jardins. Localizava-se num canto do Jardim da Luz, num triangulo junto da minha casa e atrás do muro do Grupo Escolar Prudente de Morais e era dirigido por um jardineiro italiano, Emilio Fávero. Lá estava uma estufa quente toda de vidro, que fora importada da Europa, com caldeira e aquecimento para uma temperatura constante, com duas seções: a tropical, quente, e outra de temperatura ambiente."

Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.

Em 1916 é oficializado como Jardim da Luz, como era popularmente chamado pela população, devido a sua proximidade ao Convento da Luz. 

Vista do Jardim Botânico (atual Jardim da Luz, 1919. Imagem extraída de A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo. Clique na imagem para acessar o artigo.

FONTE DA IMAGEM:
Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.

 

Na década de 1930, com a morte de Antonio Etzel, seu filho, Arthur Etzel, foi convidado para ser o novo encarregado e, mudou-se com a família para a Casa do Adminitrador dentro do jardim. Uma de suas netas, que morou no local, descreve a alguns detalhes da residência: 

"Éramos sete netos e aproveitamos muito a casa, o cercadinho na frente, onde vovô colocou uma casa de boneca, escorregador e gangorras. O porão era o escritório do vovô, um paraíso para os netos porque tinha tudo o que crianças gostam (livros de flores, plantas exóticas, máquinas, relógios e tranqueiras). Brincávamos de esconde-esconde nas camélias, pegador, fazíamos passeios até o coreto, aos lagos, ao aquário, ao roseiral, andávamos de bicicleta vendo os fotógrafos lambe-lambe tirando fotos das pessoas."

[A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.]

Com o desenvolvimento urbano da região, o local antes endereço de casarões da elite do café passa a ser ocupado por estabelecimentos comerciais e o jardim entra em processo de abandono, uma vez que a mudança de endereço da classe mais abastada financeiramente também altera o endereço de seus espaços de lazer, por exemplo, com as construções dos palacetes na Avenida Paulista, o Parque do Trianon passa a ser o local de lazer desses moradores. Eduardo Etzel, filho de Antonio e irmão de Arthur, ambos administradores do Jardim da Luz, descreve assim a decadência do local: 

“No início o Jardim assim reformado e tratado atraía as crianças das famílias ricas da cidade, que lá brincavam vigiadas pelas suas governantas européias. Também os primeiros automóveis tinham autorização para rodar pela alameda circular. Os bichos atraíam o interesse das crianças, que afluíam em grande número ao sofisticado passeio no Jardim da Luz. Aos poucos o parque foi se popularizando e entrando em decadência com a vulgarização da freqüência. A população crescia, os quartéis próximos abrigavam muitos recrutas e soldados que, com prostitutas, passaram a freqüentá-lo. A Estação da Luz, com seu grande movimento, atraiu toda sorte de marginais que exploravam os imigrantes. Além disso o Bom Retiro italiano foi deslocado pela colônia judaica e seu comércio. O crescimento da população ao redor obrigou ao uso do jardim como passagem forçada. Finalmente, em 1930 o prefeito Pires do Rio mandou retirar o gradeado e remover os bichos; a abertura do logradouro transformou-o em uma grande praça sem nenhuma personalidade. As belas grades de ferro fundido e os monumentais portões desapareceram em alguma fundição."

[Trecho do livro “Um Médico do Séc. XX Vivendo Tranformações”, de Eduardo Etzel. IN: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.]

Em 1972, reformas no jardim recuperaram, parcialmente, o paisagismo em estilo "art noveau".

 

Jardim da Luz.
Provavelmente, por volta de 1902. Fotografia de Guilherme Gaensly.
FONTE DA IMAGEM: Brasiliana Fotográfica

 

Em 2000, durante obras de restauração do jardim, um aquário subterrâneo foi descoberto embaixo do Lago de Diana. Provavelmente, ele foi construído por volta do ano de 1900 e atualmente abriga, segundo informação do site da Prefeitura Municipal de São Paulo, "13 tipos de peixes escolhidos para representar uma parcela da fauna aquática sul-americana, entre eles o dourado, acará, curimbatá e outros, doados pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp) de Paraibuna".

Em entrevista para a TV Cultura, em 2006, André Dias, administrador do Parque da Luz conta mais detalhes sobre a descoberta: 

Como se descobriu que o Parque da Luz tem um aquário?
"Ele foi descoberto durante a rvitalização que o Parque da Luz passou, em meados do ano 2000, onde foram transferidas árvores, palmeiras, que estavam em cima de onde o lago está hoje. Quando se transferiu, foi descoberto um buraco onde é o Lago da Diana. Foram cavando, tirando algumas pedras, viram que tinha uma passagem subterrânea. Onde tenm os vidros tava fechado com tijolo e cimento".

O que se sabe sobre a construção do Aquário?"
"São poucas informações. O que a gente sabe é que uma construção inglesa que imita a natureza através de concreto e de cimento, só que a origem, que é datada pro final do século 19, de que forma os ingleses interferiram no Jardim da Luz."

Não se sabe quem construiu, quem apreciava os peixes, que espécies tinha? 
"São perguntas que a gente tá tentando responder junto aos órgãos do patrimônio histórico". 

"O projeto pro Aquário do Parque da Luz seria transformá-lo num aquário temático com peixes nativos da região do estado de São Paulo, dos rios Tietê e Paraíba do Sul. Nós queremos mostrar que o rio Tietê ainda possui peixes nas suas partes conservadas, limpas, próximas às cabeceiras. E que eles têm colorido e formato tão especial que vão atrair a tenção do público."

["Foi redescoberto e revitalizado um Aquário, construído há mais de 1 século, debaixo do Parque da Luz , em São Paulo." Repórter ECO. TV Cultura.]

Em 14 de agosto de 2000 é aberta a Exposição Permanente Realizada na Pinacoteca e no Jardim da Luz e parte do acervo da Pinacoteca do Estado é distribuída pelo jardim.

A Casa do Administrador, construída no início do século XX, foi restaurada e reinaugurada no ano de 2008. Sua restauração foi realizada entre os anos de 2006 e 2007. Sobre o projeto de restauração, vale conferir o artigo: A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ (Prefeitura Municipal de São Paulo).

 

 Referências Bibliográficas

A CASA DO ADMINISTRADOR: PARQUE JARDIMDA LUZ. Prefeitura Municipal de São Paulo.

AMARAL, Antonio Barreto do. Dicionário de história de São Paulo. Coleção Paulística. Volume XIX. São Paulo: Imesp, 2006, p.355.

AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo: 1895 – 1915. 2ª. Edição. São Paulo: Carrenho Editorial / Narrativa Um / Carbono 14, 2004. 

ARAÚJO, Emanoel, FARIAS, Agnaldo. Escultura brasileira - da Pinacoteca ao Jardim da Luz. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2000.

CADERNOS CIDADE DE SÃO PAULO: REGIÃO DA LUZ. Instituto Cultural Itaú, 1994.

"Foi redescoberto e revitalizado um Aquário, construído há mais de 1 século, debaixo do Parque da Luz , em São Paulo." Repórter ECO. TV Cultura.

GORDINHO, Margarida Cintra, CANNABRAVA, Iatã. Patrimônio da metrópole paulistana.São Paulo: Terceiro Nome / Secretaria do Estado de Cultura, 2010, p.108.

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JORGE, Clóvis de Athayde. Luz: notícias e reflexões. Histórias dos bairros de São Paulo. São Paulo: DPH - Departamento do Patrimônio Histórico, 1988.

KAMIDE, Edna Hiroe Miguita, PEREIRA, Terza Cristina Rodrigues (coord). Patrimônio Cultural Paulista: CONDEPHAAT, bens tombados 1968 – 1998.São Paulo: Imesp, 1998, p.219.

OBRAS DE ARTE EM LOGRADOUROS PÚBLICOS DE SÃO PAULO REGIONAL SÉ. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento do Patrimônio Histórico - Divisão de Preservação, 1987.

"Programa Trilhas Urbanas mostra peixes que habitam o aquário do parque da Luz". Prefeitura Municipal de São Paulo.

RESENDE, Maurício Rodrigues de. O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana. Revista PIBIC, Osasco, v. 5, n. 6, 2011, p. 99-110.

"Troca de árvores revela achado arqueológico em SP". Diário do Grande ABC. 24 Mai. 2000.

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