Texto e Fotografias de Mônica Yamagawa


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Edificação onde funcionou a Casa Fretin

 

CENTRO DE SÃO PAULO

ANTIGA CASA FRETIN

história do comércio do centro de são paulo

atualizado em: 13 de maio de 2016

 

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Entre os anos de 1924 e 2001, a edificação existente, na esquina da Rua São Bento / Praça do Patriar e Rua da Quitanda, foi a sede da Casa Fretin, fundada por Louis Fretin.

Louis Fretin tornou-se relojoeiro pela École D'Horlogerie de Paris, abrindo a Relojoaria Louis Fretin, em 1895, na Rua São Bento, 10.

Além de relógios, passou a consertar os óculos dos clientes, um produto que, na época, era comprado no exterior e não estava disponível no mercado brasileiro. Com o tempo, passou a importar e vender o produto na cidade - pince-nez, lorgnon, face-amain, monóculos e binóculos -. Tais produtos estavam em moda na Europa e aqui, eram usados como objetos de distinção (e não necessariamente, como indicação médica) pela classe privilegiada:

"os pince-nez e óculos que não apenas lhes corrigiriam objetivos problemas de vista como se associariam às suas imagens públicas de intelectuais, de homens de classe, de figuras distintas, (...) os óculos - aqueles instrumentos ópticos com hastes para apoiar-se sobre as orelhas - concebidos, ao contrário dos face-à-maisn (tipo de lorgnon), para serem usados por tempo prolongado, eram de uso preferencialmente masculino, denotando 'a capacidade deste objeto em concentrar aqueles atributos entendidos como masculinos', isto é, 'atividades cerebrais associadas ao trabalho produtivo, às ciências, ao controle financeiro da vida doméstica, à escritura em geral, à memória da linhagem patriarcal'"

[BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006, p.145.]

Em 1906, Fretin possuía um "escritório" em Paris, instalado em uma região com vários outros armazéns, que serviam de estoque para grandes quantidades de produtos para comércio, via atacado:

"em seus anúncios impressos, a Fretin anunciava, orgulhosamente, possuir uma casa de compras em Paris, no Faubourg Poissobière, número 112."

[CAVALCANTI, Pedro, DELION, Luciana. São Paulo, a juventude do centro.> São Paulo: Conex, 2004, p.122]

Além da França, com a ascensão do mercado norte-americano como fonte para os produtos importados pelo Brasil, Fretin também manteve uma casa de compras em Nova Iorque:

"Atento às novas tendências, Louis Fretin chegou a publicar anúncio em inglês - uma propaganda idealizada em Nova York para as lentes denominadas 'So-Easy' ('tão-fácil'), das quais era importador. Começavam a surgir os primeiros casos de publicidade 'globalizada' em São Paulo, isto é, veiculada tal e qual aqui e na matriz fornecedora."

[BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006, p.143.]

No início do século XIX, a Casa Fretin trouxe para São Paulo, o Sr. John (Mr. John), um optometrista norte-americano, para resolver os problemas com receituários, realizando as consultas e os exames necessários para receitar óculos de grau. [SANTOS NETO: 2006, p.113]

Em 1913, o nome do estabelecimento muda de "Relojoaria Fretin" para "Casa Fretin". A mudança para a nova edificação, em 1924, aconteceu pela necessidade de mais espaço para acomodar os produtos e para atender sua clientela, o estabelecimento passou a ocupar os quatro andares, mais o térreo, a sobreloja e o subsolo do prédio localizado na esquina da Rua São Bento com a Praça Patriarca e a Rua da Quitanda, pois, além do departamento de ópitica, a Casa Fretin possuía departamentos de cutelaria, cirurgia, aparelhos de laboratório, radiologia, engenharia e precisão, produtos ortopédicos, higiene e perfumaria.

 

A Família Fretin

Louis Albert Fretin, o fundador da Casa Fretin, nasceu no Brasil, filho de Victorine Amèlie Delaunay Fretin e Adolphe Pierre Fretin. Além de Louis, o casal teve três outros filhos.

Na década de 1860, sua mãe, Victorine Amèlie, uma das poucas mulheres que, na época, mesmo com marido vivo, estava à frente de seu próprio empreendimento, era proprietária de uma loja, localizada na Rua XV de Novembro. Sua loja fornecia produtos importados variados, por exemplo, artigos para fumantes e partituras musicais, ao mesmo tempo em que o local servia de espaço cultural, por assim dizer, pois,  

"estabeleceu no mesmo endereço, um gabinete de leitura, isto é, um sistema de aluguel de livros em português e francês (fato que mostra até onde podia ir a influência inovadora desses comerciantes, à parte a própria circulação de livros e a absorção da língua francesa"

[BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006, p.141.]

Victorine Amèlie casou-se com Adolpho Pierre em 1855, em Neuilly sur Seine e, após a morte do marido (1876), entre o final da década de 1870 e início da década de 1880, assumiu a gerência do Hotel de França (Rua Direita), impedindo que, com o inventário, o estabelecimento fosse colocado à venda: 

"No inventáro, o mobilário de cada quarto foi descrito, e havia quartos com cama completa, mesa, lavatório, quadros, espelhos, cadeira de balanço, canapé, cômoda, cabides, moringa. Foram descritos 28 quartos. E mais uma sala de jantar grande e outra pequena, corredores, adega, cozinha e marcenaria. Havia também quantidades de vidros e cristais, porcelana, rouparia. Os bens do hotel foram avaliados em 5:192$430. Com as dívidas ativas formavam um patrimônio de 9:500$000. Porém o passivo da casa era de mais de 12 contos. Ao saber do estado da herança, o curador de órfãos ordenou praça dos bens para pagamento das dívidas, e a viúva rapidamente condenou tal decisão, (...). Ela pretendia ficar com o hotel, e para tal fizera acordo com os credores, de pagar 45% do seu débito."

[OLIVEIRA, Maria Luiza Ferreira. Entre a casa e o armazém: relações sociais e experiência da urbanização. São Paulo, 1850 – 1900. São Paulo: Alameda, 2005, p.214.]

 

FONTE DA IMAGEM:
BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006.

 

Victorine Amèlie conseguiu mudar a decisão do curador e a decisão do juiz, com uma carta de próprio punho na qual explicava os prejuízos que o anúncio público da liquidação (leilão) traria para sua família: 

"senão desastre, pelo menos dúvidas e grave prejuízo atual proprietária do antigo hotel, que continua na mesmac asa e com igual denominação, afugentando-lhes desse modo os fregueses residentes no interior e exterior da província, onde o mencionado hotel é conhecido, e que poderiam pensar estar esse sob a pressão de uma liquidação judicial... em praça judicial jamais alcançariam os objetos os preços das avaliações, que a suplicante julga elevado."

[OLIVEIRA, Maria Luiza Ferreira. Entre a casa e o armazém: relações sociais e experiência da urbanização. São Paulo, 1850 – 1900. São Paulo: Alameda, 2005, p.214.]

Jorge Americano, em "São Paulo naquele tempo (1895 - 1915)", descreveu a edificação do Hotel de França: 

"(...) sobrado. Vinha do século passado e estava na esquina da Rua São bento com a Rua Direita. Diária com refeição, 4 mil réis. Janelas retangulares, com arco batido, de madeira, na parte superior. Os quartos davam para a Rua de São Bento e as salas para a Rua Direita. Portas de lojas, laterais ao saguão de entrada. De cada lado da entrada, um lampião de gás, preso à parede."

[AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo: 1895 – 1915. 2ª. Edição. São Paulo: Carrenho Editorial / Narrativa Um / Carbono 14, 2004, p.135.

Retrato de Victorine Amèlie Delaunay Fretin,
realizada por Militão de Augusto Azevedo, em 1881.
Acervo Museu Paulista

FONTE DA IMAGEM:
BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006.

 

O retrato de Victorine Amèlie foi registrado, em abril de 1881, por Militão Augusto de Azevedo e hoje faz parte do acervo iconográfico do Museu Paulista: 

"com cabelos feitos, aplicação de trança a cachos postiços, brincos e gola de rendas e babados, no capricho sem ostentação que conviria a uma distinta comerciante."

[BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006, p.142.]

Louis Albert, após a morte do pai, com cerca de 11 anos de idade, foi enviado para a França, onde aprendeu o ofício de relojoeiro, retornando ao país em 1890, onde por cinco anos trabalhou em Campinas, como empregado contratado, para depois, em 1895, voltar para São Paulo e fundar seu próprio estabelecimento.

Segundo Heloisa Barbuy, no início do século XX, Louis Fretin constava no censo, não como comerciante, mas, como industrial, fabricante de vidros e instrumentos de óptica:

"OFFICINAS

De preparo de vidro para óptica.
De fabrico de aros para óculos e nasóculos.
De conserto e reparação de isntrumentos de engenharia e navegação, de cirurgia em geral.
De cutelaria, relojoaria, ourivesaria e instrumentos de música.
Especialidade em vidros periscópios."

[BARBUY, Heloisa. A Cidade-Exposição: comércio e cosmopolitismo em São Paulo, 1860 – 1914. São Paulo: Edusp, 2006, p.143.

Assim como seus pais, enquanto tomava a frente dos negócios da Casa Fretin, sua esposa, Eugènie Barthe, mantinha uma casa de modas na Rua São Bento.

Em 1943, sob a direção de Paul Fretin, um de seus filhos,a loja tornou-se "sociedade anônima".

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