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memória oral

atualizado em: 21 de julho de 2015

 

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Apesar das controvérsias sobre o poder de alcance da História Oral, na transição das décadas de 1980 para 1990, quando o termo ganha espaço nas discussões acadêmicas do país, atualmente, 

“parece ser consenso a sua definição como uma metodologia de pesquisa que produz a sua própria fonte a partir de entrevistas gravadas com pessoas que vivenciaram e vivenciam certos acontecimentos, conjunturas, modos de vida, instituições e outros aspectos da vida contemporânea que costumam não ser contempladas pela documentação escrita”

[PERELMUTTER, Daisy. História Oral: limites e possibilidades. São Paulo. Curso Gestão em Bens Culturais – Escola de Economia / FGV-SP. MBA Bens Culturais: Cultura, Economia e Gestão, 2007.]

A expressão “parece ser consenso...” , utilizada por Daisy Perelmutter, Doutora em História Social pela PUC/SP, ilustra as discussões sobre terminologia e metodologia que envolve a denominada História Oral. 

Em “História oral: um inventário das diferenças”[1] , a pesquisadora do CPDPC/FGV, Marieta de Moraes Ferreira, destaca duas linhas de trabalho que envolvem atualmente o campo da história oral – não excludentes, porém distintas -.

A primeira linha de trabalho utiliza os depoimentos orais como ferramentas para o preenchimento das lacunas não preenchidas pelas fontes escritas, direcionando-se para a recuperação do percurso, “criação de novas histórias (...), contribuir para o processo de dar voz a experiências vividas por indivíduos e grupos que foram excluídos das narrativas históricas anteriores” [2], por exemplo, “cujas fontes são especialmente precárias”[3], depoimentos estes que podem servir tanto para objetivos acadêmicos, como “instrumentos de construção de identidade e de transformação social”[4]. Para esse grupo, a preocupação central é a produção de depoimentos que garantam o máximo de veracidade e de objetividade possíveis, para isso, são necessários a elaboração de roteiros consistentes e o uso de fontes adicionais que possam reunir elementos que sirvam de base como contraprova e auxiliem da exclusão de distorções. 

Sobre essa busca de aproximação da veracidade, Alessandro Portelli, pesquisador e professor italiano, descreve:  

“compromisso com a verdade, uma busca utópica e a vontade de saber ‘como as coisas realmente são’, equilibradas por uma atitude aberta às muitas variáveis de ‘como as coisas podem ser’. Por um lado, o reconhecimento da existência de múltiplas narrativas nos protege da crença farisaica e totalitária de que a ‘ciência’ nos transforma em depositários de verdades púnicas e incontestáveis. Por outro lado, a utópica busca da verdade protege-nos da premissa irresponsável de que todas as histórias são equivalentes intercambiáveis e, em última análise, irrelevantes”.

[PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na História Oral. IN: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, n.15, Abr. 1997, p.15.] 

A segunda, foca o estudo das representações, centralizando o papel da relação entre memória e história. Diferentemente da primeira, “a subjetividade e as deformações do depoimento oral não são vistas como elementos negativos”[5] , pois, essas não seriam problemas, uma vez que a veracidade dos relatos não é a preocupação central, podendo se revelar como recursos adicionais para ampliação da pesquisa: “se ouvimos e mantivermos flexível nossa pauta de trabalho, a fim de incluir não só aquilo que acreditamos querer ouvir, mas também o que a outra pessoa considera importante dizer, nossas descobertas sempre vão superar nossas expectativas”[6] .

Para Alessandro Portelli, essa subjetividade de ser desqualificante, é desejada:  

“enquanto as outras ciências sociais desempenham a indispensável tarefa de abstrair, da experiência e memória individuais, padrões e modelos de memória que transcendem à pessoa, a História Oral alia o esforço de reconstruir padrões e modelos à atenção às variações e transgressões individuais concretas. Assim, a História Oral tende a representar a realidade não tanto como um tabuleiro em que todos os quadrados são iguais, mas como um mosaico ou colcha de retalhos, em que os pedaços são diferentes, porém, formam um todo coerente depois de reunidos – a menos que as diferenças entre elas sejam tão irreconciliáveis que talvez cheguem a rasgar todo o tecido. Em última análise, essa também é uma representação muito mais realista da sociedade, conforme a experimentamos”

[PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na História Oral. IN: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, n.15, Abr. 1997, p.16.] 

Apesar das transformações no campo da história, “a legitimidade da história oral não é assunto resolvido” [7] . Recuando algumas décadas, entre 1960 e 1970, nos Estados Unidos, ocorreu a expansão e desenvolvimento de vários centros de história oral. Entre os temas de pesquisa, o destaque dos depoimentos sobre, por exemplo, as lutas dos direitos civis, que procurava recuperar as trajetórias das minorias e excluídos, como mulheres, negros, imigrantes. Vista como “uma história oral militante”[8] , não foi bem acolhida pela academia - esse engajamento é fortalecido ao final da década de 1970, com a publicação de “Vozes do Passado”, de Paul Thompson, destacando a função da história de“devolver a história do povo, promover a democratização da história em si mesma”[9] , expandindo-se através de pesquisas semelhantes na Alemanha, Itália e Inglaterra, nessa última, o envolvimento com a história oral não se restringiu ao espaço acadêmico: alfabetizadores de adultos utilizaram a história oral como um instrumentos para estimular a autoconfiança dos analfabetos e sindicalistas, como meio de registrar a história de suas organizações -. Essa “militância política” ainda hoje, é uma das críticas direcionadas à história oral.[10] 

Uma segunda crítica é a de que a História Oral, por si mesma, não é possível, pois, depende do documento escrito para confrontação e conseqüentemente, significação. Em outras palavras, aceitam-se a existência da fonte oral, do documento oral, porém, não uma “história oral”, pois sua finalidade seria a de produção de fontes que servirão para análises e interpretações da “História”. 

Outro aspecto negativo, relacionado à História Oral e/ou às Fontes Orais, é a problemática da administração acadêmica sobre as fontes produzidas, pois, em sua maioria, elas permanecem com os pesquisadores, tornando-se público apenas o resultado final - artigos, dissertações, teses – e não a totalidade dos depoimentos obtidos e somando-se a isso, o direito de uso/divulgação que envolve entrevistado e entrevistador, representam obstáculos para a consulta dos demais interessados.

Sobre a acessibilidade aos registros orais, Portelli, através de seu depoimento, exemplifica as questões que a envolvem: 

“um determinado depoimento foi prestado a você e nem sempre o entrevistado está ciente de que sua narrativa poderá se tornar acessível, em algum arquivo, a qualquer pessoa. Quanto a mim, portanto, a condições que imponho (...) é que as fitas fiquem guardadas lá (Acervo de História Oral de Kentucky) e quem quiser poderá ouví-las e ler as transcrições, mas, antes de publicá-las, deverão obter minha permissão. Preciso ter certeza de que as aproveitarão sem violar o meu acordo, meu pacto com o entrevistado”

[Transcrição do debate com Alessandro Portelli. IN: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, n.15, Abr. 1997, p.36.]

Seja como ciência, disciplina ou fonte, os depoimentos orais, suas subjetividades e distorções, ampliam as possibilidades de pesquisas e conseqüentemente, possibilitam uma melhor compreensão do objeto de estudo, uma vez que exigem um abordagem interdisciplinar, que envolve conhecimentos tecnológicos para os registros, conhecimentos na área de psicologia para compreensão das subjetividades dos relatos baseados na memória, entre outros, como direitos autorais, catalogação e arquivos.

 

referências bibliográficas

[1] FERREIRA, Marieta de Moraes. História oral: um inventário das diferenças. IN: ENTRE-VISTAS: abordagens e usos da história oral / Marieta de Moraes Ferreira (coord.); Alzira Alves de Abre... [et al]. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.9. 

[2] THOMSON, Alistar. Recompondo a memória: questõe sobre a relação entre a História Oral e as memórias. IN: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, n.15, Abr. 1997, p.69. 

[3] FERREIRA, Marieta de Moraes. História oral: um inventário das diferenças. IN: ENTRE-VISTAS: abordagens e usos da história oral / Marieta de Moraes Ferreira (coord.); Alzira Alves de Abre... [et al]. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.9. 

[4] Ibid., p.9. 

[5] FERREIRA, Marieta de Moraes. História oral: um inventário das diferenças. IN: ENTRE-VISTAS: abordagens e usos da história oral / Marieta de Moraes Ferreira (coord.); Alzira Alves de Abre... [et al]. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.10. 

[6] PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na História Oral. IN: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, n.15, Abr. 1997, p.22. 

[7] FERREIRA, Marieta de Moraes. História oral: um inventário das diferenças. IN: ENTRE-VISTAS: abordagens e usos da história oral / Marieta de Moraes Ferreira (coord.); Alzira Alves de Abre... [et al]. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1994, p.10. 

[8] Ibid., p.4. 

[9] Ibid., p.5. 

[10] Ibid., p.11. 

 

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