Website de Mônica Yamagawa

BERNARDO MARTINS MEIRA

& Ca.

armazem de molhados e generos da terra
fabrica de licores

rua do commercio, 29
rua são bento, 33/35

história do comércio do centro de
são paulo

atualizado em: 1 de outubro de 2017

 

home > centro de são paulo > história do comércio > BERNARDO MARTINS MEIRA & CA.

"BERNARDO MARTINS MEIRA & Ca., participam á seus freguezes, que de ora em diante continúa á ter a sua caza muito bem sortida de bebidas.

[Correio Paulistano, Anno I, Número 7: 4 de julho de 1854]

O anúncio de 1854 não menciona o endereço do estabelecimento. No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Provincia de S.Paulo de 1857 (com os dados do ano de 1856), consta Bernardo Martins Meira, como armazem de molhados e generos da terra e fábrica e distillações de licores etc., localizado na Rua do Commercio.

O número do estabelecimento na Rua do Commercio aparece nas Atas da Câmara da Cidade de São Paulo – de 8 de outubro de 1855:

"Requerimento de Jorge Gaimer, declarando que possue uma Fabrica de licores na rua Alegre n. 24, empregando como materias primas, agua, aguardente, assucar, e essência de roza, canella, cravo, sendo as vazilhas alambiques de cobre. Forão tomadas as declarações no livro competente. Dito de Bernardo Martins Meira, fazendo iguaes declarações, quanto a Fabrica de licores, genebra, e mais bebidas espirituosas, que possue na rua do Comercio, n. 29. Teve igual despacho."

[Atas da Câmara da Cidade de São Paulo – 1855 – Publicação da Subdivisão de Documentação Histórica, Vol. XLI, Departamento de Cultura, Divisão de Documentação Histórica e Social, 1940, p. 155, 37ª. Sessão Ordinária aos 8 de outubro de 1855]

Segundo as pesquisas de Maria Luiza Ferreira de Oliveira, Bernardo Martins Meira era português, sócio-fundador da Sociedade de Beneficência Portuguesa. No inventário de 1876, o seus estabelecimento nesse período estava localizado na Rua de São Bento, 33/35, em uma casa térrea, com quatro portas:

"Em 1876, possuía um armazém onde destilava bebidas: tinha dois alambiques, tachos de cobre, máquina de arrolhar, prensa com mesa. Lá se encontravam produtos sofisticados e simples, como deiscentas garrfas com bebidas da terra, ao lado de cognac francês, cerveja hamburguesa, genebra holandesa, absinto, vinho do Porto, rum da Jamaica, licores, vinho Bordeaus, vinho Southerne. Além de bebidas alcoólicas, tinha arnica, chá verde, latas de sardinha, anis estrelado, cravo da índica, arnica em flor, arnica em rama, lírio florentino em pó, fogos chineses, água de flore de laranja, vinagre, cálices para champagne, cálices para vinho, copinhos, compoteiras, carvão, sabão, vassouras, peneiras sortidas, cem cocos da Bahia etc. O forte da casa eram as bebidas, mas também especiarias, além de alguns itens básicos como vassouras, sabão, carvão, sardinhas."

[OLIVEIRA, Maria Luiza Ferreira. Entre a casa e o armazém: relações sociais e experiência da urbanização. São Paulo, 1850-1900. São Paulo: Alameda, 2005, p.275-276.]

Em "Alegrias Engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XX e começo do século XX", tese de Daisy de Camargo (Unesp, 2010), adiciona informações sobre as bebidas encontradas (e consequentemente, uma análise sobre sua clientela):

"Essa relação de bens permite imaginar um ambiente onde garrafas e pipas se misturam: capilé, vinho do porto, vinho branco ordinário, tinto e de laranja, Southerne e Bordeaux, verde (vinho jovem muito apreciado no norte de Portugal), rum da Jamaica, espírito de vinho, absinto, genebra holandesa, bíter, conhaque Jules Rubim, cervejas Christiana, Estrella, Hamburguesa, licor Yapana, bebida da terra.

Clientela bastante diversificada devia ser a desse senhor Bernardo Martins Meira: de vinho branco ordinário para beber e vender a miúdo aos menos abastados, até o vinho do porto embravecido e fortificado com álcool de uva; o absinto – destilado fosforescente e fabricante de sonhos feito a partir de raízes de angélica machucadas e que transforma o açúcar em esponja rasgada quando o atravessa –; conhaque (cuja queima faz o ponche), vinho Bordeaux e Southerne, também napoleônicos, todos para saciedade de luxo de bolsos e ritos sofisticados.

Do conhaque e do vinho fortificado não sei, mas dizem que um dos primeiros sintomas observados com o uso do absinto é a falta de pudor. Ainda constam nas compras de Meira botijas de Coraçau, a famosa aguardente de Paraty, uma das mais conceituadas do Brasil na época, garrafa de vinho Liberdade. Para acompanhar apenas muitas latas de sardinha e mais nada. Ah! E para proteger todo esse patrimônio, uma espingarda fina Laposte, de dois canos, com polverinho e chumbeiro, que o mundo lá fora já não estava para brincadeiras."

[CAMARGO, Daisy. Alegrias Engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XX e começo do século XX. Assis: Unesp, 2010]

Maria Luiza Ferreira de Oliveira, ao analisar o inventário de Bernardo Martins Meira, além dos valores, ao descrever seus bens, nos dá uma pequena ideia de sua residência: segundo a autora, ele e sua esposa, Dona Anna Joaquina, não possuiam bens de raiz, eu seja, não eram proprietários da edificação onde moravam, o casal optou por montar o négocio e viver em casa alugada (aluguel de 1000$000 mensais).

Ao comparar com os bens de outros inventários, pode notar que seus móveis eram de uma padrão melhor que a média de outros donos de armazéns. Os móveis perfaziam um valor total de 575$800 (também estavam inclusos nesse valor, a prensa e a máquina de arrolhar, não somente os móveis da residência); entre eles o destaque era uma secretária com 21 gavetas, avaliada em cerca de 100$000, porém, o item estava penhorado por execução do Dr. Alfredo Ellis.

O casal mantinha uma cozinheira (ao custo de 25$000 mensais) e um "camarada" (30$000 por mês), até o ano de 1875, posuíam escravos e no armazém, constava que tinha dois funcionários.

Infelizmente, após a sua morte (24 de novembro de 1875), sem conseguir receber muitas das contas abertas, seus filhos e sua viúva acabram sem nenhuma herança e deixaram a casa/estabelecimento da Rua São Bento (em uma nota publicada no Correio Paulistano em 21 de julho de 1916, um dos filhos:

"Dar crédito era uma prática cotidiana no armazém de Bernardo Meira. E parece que talvez tenha sido o descontrole do crédito a causa da falência da família."

[OLIVEIRA, Maria Luiza Ferreira. Entre a casa e o armazém: relações sociais e experiência da urbanização. São Paulo, 1850-1900. São Paulo: Alameda, 2005, p.277.]

 

OBSERVAÇÃO: Um trabalho muito interessante sobre o estabelecimento de Bernardo Martins Meira, na São Paulo do século XIX é "Alegrias Engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XX e começo do século XX", tese de Daisy de Camargo.

[+] Outros estabelecimentos comerciais que fizeram parte da História do Centro de São Paulo

[Correio Paulistano, Anno I, Número 7: 4 de julho de 1854]

 

[Correio Paulistano, Anno XV, Número 3534: 14 de março de 1868]

 

[Correio Paulistano, Anno XVI, Número 4047: 19 de dezembro de 1869]

 

[Correio Paulistano, Anno XVII, Número 4110: 11 de março de 1870]

 

[Correio Paulistano, Anno XIX, Número 4820: 22 de agosto de 1872]

CENTRO DE SÃO PAULO

BIBLIOGRAFIA


download gratuito

Alegrias Engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XX e começo do século XX

Daisy Camargo
Unesp, Assis
2010

Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em História (Área de Conhecimento: História e Sociedade)

Esse trabalho trata das relações sociais que permeiam o consumo de bebidas alcoólicas na cidade de São Paulo, no final do século XIX e começo do XX, desvelando gestos e sensibilidades do cotidiano da cidade, captando costumes, modos de vida e sujeitos extintos. O objetivo é explorar uma cultura gestual, material e sensível, historicamente construída, ligada aos alcoóis, seus objetos, suas maneiras de saborear e lugares de consumo. Palavras-chave: Alcoóis – Consumo - São Paulo – Cotidiano – Cultura Material

 


SÃO PAULO - A JUVENTUDE DO CENTRO

Luciano Delion
Pedro Cavalcanti
Conex
2005

Cidades são feitas de vidas humanas e de cimento armado. Evocar o centro de São Paulo nos anos de sua juventude significa trazer de volta não apenas o traçado esquecido de suas ruas e edifícios, como também a trajetória dos homens e mulheres que lá viveram, sonharam e trabalharam. Este livro trata de arquitetos e construtores, e também de revolucionários e administradores, banqueiros e industriais, jornalistas, pintores e poetas, célebres ou modestos, e das marcas materiais e imateriais que deixaram no corpo e na alma da cidade. O período coberto pelo livro, da Proclamação da República ao Quarto Centenário, foi escolhido por representar o que se poderia chamar de juventude do centro, época do apogeu de sua beleza e de seu prestígio...[+]

 

Entre a casa e o armazém: relações sociais e experiência da urbanização
São Paulo, 1850 – 1900

Maria Luiza Ferreira de Oliveira
Alameda
2005

Este livro é um convite para o leitor voltar a um tempo no qual São Paulo combinava características de uma cidade moderna com traços fortemente rurais. Bastava uma rápida caminhada até a Igreja da Misericórdia para avistar, do alto de seu campanário, descampados, grotões, charnecas, beiras de rios e até animais silvestres e matas, que se estendiam muito além dos vales do Anhangabaú e Tamanduateí. Os personagens deste cenário? Aquela parte da população abstratamente designada como "classes médias" - na verdade, uma gente esquecida, os remediados da sociedade, uma multidão de figurantes mudos da cena paulistana - os quais atendiam pelos nomes de Dona Carolina, Seu Marcelino, Ana de Sorocaba e centenas de outros que aparecem nos registros dos quase mil inventários e testamentos que chegaram até nós. A maioria tinha pouco mais de quarenta anos no longínquo ano de 1872, quando surgiram na cidade os primeiros lampiões a gás. Pessoas que vivenciaram um tempo de incertezas e mudanças, abriram lojas e armazéns, compraram uma casinha, faliram, venderam tudo, tiveram dias bons ou ruins - enfim, sentiram na pele aquele diagnóstico certeiro de António de Alcântara Machado, quando dizia que 'em São Paulo não há nada acabado e nem definitivo, as casas vivem menos que os homens e se afastam, rápidas, para alargar as ruas'...[+]

 


São Paulo Antigo 1554-1910

Antonio Egydio Martins
Paz e Terra
2003

Antonio Egydio Martins foi responsável pela organização do Arquivo do Estado de São Paulo por 30 anos, ao longo dos quais percorreu a documentação em busca dos pormenores da história paulistana. São Paulo Antigo era o título das crônicas que passou a publicar nas páginas do Diário Popular e que caíram no gosto do público, dando origem ao livro, publicado em dois volumes em 1911 e 1912. O livro permaneceu como fonte privilegiada para se conhecer o cotidiano da cidade, tratando de seus personagens, das festas, dos costumes, dos hábitos alimentares, dos governantes, dos jornais, das lojas... São Paulo Antigo é como um baú da história paulistana, ao qual se recorre em busca da informação miúda, do detalhe, da data, dos tipos da cidade, dos pormenores perdidos no rolar do tempo...[+] 

Edição usada disponível na
Estante Virtual

 

home      moyarte      não-diário      contato